Archive for fevereiro, 2008

lixo!

É o lixo que está em todo lugar

O lixo que afeta o modo de pensar

Afeta as ações, os meios, as vidas

Esse lixo que alimenta os seres

Lixo que sai de cada um deles

Essa podridão toda sem fim

Que toma conta de tudo

Como uma epidemia mortal

Que a tudo contamina

Paredes cheias de lixo

Rios cheios de lixo

Lixos cheios de lixo

Não há mais luxo

As palavras são lixo

Bêbados, ladrões, prostitutas são lixo

Donas de casa, patrões e papas também

Esculpimos lixo

Reciclamos lixo

Ingerimos lixo

O lixo afeta todos

O sangue que antes corria nas veias

É chorume do lixo que somos

Liser humanxos

nihil

bem…
de vazios…
eis do que me componho, a matéria que me forma, e que te forma também…
átomos mais vazios que cheios… mais buracos que queijo…
Ao mesmo tempo tudo é morte…
Eu, patchwork de morte… pedaços em mim de guerras, de vitórias, de dores e alegrias…
em mim residem heróis e perdedores… e eu residirei no futuro…
Se em mim encostar, farei parte de você e você de mim…
Não há nada de novo na Terra há muito tempo…

Metamorfoses…
Pessoas, animais, plantas…
que morrem, putrefam, viram matéria orgânica…
e alimentam, cuidam… de outros e vivem assim nesse “novo”… sendo o mesmo “velho”…
Me visto de morte, como morte, ela me cerca e me seduz…
E não há sentido algum nisso…
Sem rumos a serem tomados porque tudo acaba e é efêmero… e tudo é perpétuo… reciclado…
Física, química, biologia…
= nihil =

 

sem nome

Ora Parcas dai me tempo!
anima-me deusa da insânia
a sobreviver neste mundo a esmo
a inebriar me com cantos salutares
por tudo isso respondo e
escolho a opção onírica
que me impulsiona a novos achares
– ficarei louca e isso é fato
e é neste abismo que quero viver
não ser, experimentando ser todas as coisas
e sendo, aspirando toda essa essência
de Rei(s) que contam suas história
e de poetas perdidos na memória
repito,
quero viver mais tempo,
ainda que efêmero o momento!

Aula

Eu vou falar com você
Ainda que não esteja me vendo.
E colocarei coisas em tua mente
Mesmo que você não queira
Comunicarei meus pensamentos
Por teus olhos
Lerás e escreverás minhas idéias.
Não estando com você
Ponho-me a dialogar com teu coração,
Zombo de teu sonho
E rio do que posso fazer
Você não entende, crê e vive
Eu não entendo, creio e vivo?

4/8/2003

não tenho nada a falar

 

Não tenho nada a falar

Sim, absolutamente!

Nihil!

Que teria eu a escrever?

Buraco constituído de pele, carne e ossos

E mais, que busca encontrar aqui?

O que procura nas palavras?

Alento? Esconderijo? Mímesis?

Saia! Fora daqui!

Porque não tenho nada

e não há nada a dizer,

Porque não digo nada

e não há nada a fazer,

Porque não existe nada

e não há nada a temer!

nihilities

“quando na paz, busco guerra, estando nela, busco a paz”

Ves

vejo a vida veloz velada vociferando
vivida em valores velhos, vis
valorosos versos voam
vozes vindas dos vãos
versificam vulneráveis veneráveis
veias volumosas vaiam veementemente
vamos visualizar a volta verdadeira
visões validem vossos votos
o verde vinga-se vigorosamente
vês ves vibrantes…

cheia

Já estou cheia de tantas coisas por aí. Por aí tem tantas coisas das quais estou cheia. Cheia de tantas coisas estou por aí. Cheia de tantas. Coisas. Estou tantã já

uma outra, como tantas

Chegara mais cedo aquela noite. Despia-se. Brincos, pulseiras, colares, saltos, fivela, meia 7/8, liga – a fantasia de todo dia indo ao chão. Era um pouco dela que caía ali.

Não sabia mais o que era . Se toda a roupa, os perfumes, a pompa, brilhos e paetês, ou se era aquilo que agora via no espelho: uma mulher, cansada, sem muitos sonhos, sem o cheiro do perfume, sem adereço algum, uma outra como tantas.

No banheiro, lavava-se, esfregava tentando tirar os odores que tomaram o lugar das fragrâncias doces: o suor impregnado, as palavras sujas que ouvira, os toques, as mãos que ainda lhe violentavam, os membros que lhe haviam tocado, esfregava, esfregava, esfregava. A pele tão branca, avermelhava-se pela força do movimento que era empregado. Queria limpar-se de toda aquela podridão, da sua vida, da outra que em si habitava. A água lavava parte das dores, desciam pelas gotas, lágrimas, despida totalmente do passado remoto, estava agora mais leve, menos tesa. Poderia dormir, e, quem sabe sonhar com o dia em que tudo iria acabar.

Não, não sonhara, passou horas pensando nas cenas. Não só nas que havia vivenciado há pouco, mas nas que queria atuar. Queria ser atriz. Ser boa de verdade, não mais o fingimento de gemidos, as caras e bocas que fazia, mas queria ser outras, outros, mudar de mundo… ser a Beatriz! Depois de lutar com tantos pensamentos, adormecera.

E como sempre, o relógio toca. Novamente, levanta-se e faz café. Mais uma vez, outro dia começa. Já são três horas da tarde. E nem é mais tão dia assim. A rotina inicia e vai engrenando lentamente até o “rush” em poucas horas.

Passar na quitanda, comprar mistura, pão e desinfetante. Voltar pra casa, limpar o banheiro, pegar as roupas do varal, ler os classificados, comer… quem sabe sobra tempo para a novela. Na mente cantarolava o de costume “Olha, será que ela é moça, será que ela é…” porém o tic-tac quebrava melodias e lhe mostrava que o tempo urge.

Quatro voltas completas do relógio, o banho já tomado. O creme hidrante ia subindo dos pés, para as pernas, virilha, barriga, nádegas, costas, seios, braços, pescoço. Pro rosto, outro creme. Calcinha vinho rendada, corset combinando, cinta-liga, meia 7/8 arrastão, também no mesmo tom. Olha para o espelho, sobe no salto, sente-se poderosa, não é linda, mas dentro de tal embrulho, chama e muito a atenção. Um gole de vinho. Sobre o hidratante facial, a base. Sobre ela, pó, corretivo, sombra, lápis, rímel, blush, batom, vinho, mais batom. Máscara feita, olha-se novamente no espelho e não se vê mais, no reflexo uma ninfa, uma deusa-guerreira, um anjo negro que estarreceria muitos naquela noite. Metamorfose.

Por fim, a veste cabal. Um delgado vestido de cetim preto, decotado, pouco acima dos joelhos, esvoaçante, provocante. Perfuma-se. Atrairá para si, como as flores, os mais variados tipos de insetos. Essa era a intenção. Último gole de vinho.

Toda mimesis passou do tempo. Corre agora. Táxi! Ruas, esquinas, avenidas, trânsito, buzina, sinais, pessoas, respiração mais forte, batimentos acelerados, velocidade, luzes, música, lugares familiares. Pára. Respira fundo, olha para a casa que já começa a encher, e entra pelos fundos sorrateiramente. Pausa.

Uma vez lá dentro, ouve reclamações sobre o atraso e desculpa-se falando do trânsito.

Nos camarins mais pó. Senta-se. Bebe. Conversa com outras. Quando a sós, checa a bolsa: batom, rímel, camisinhas, dinheiro, ainda que pouco.

É chegada sua hora. Vira uma dose de uísque barato para soltar-se mais. Mexe nos cabelos, ajeita o vestido, faz pose. – É você!- uma voz sinaliza sua entrada.

As luzes poucas, coloridas, esparsas. Uma névoa recobria o lugar, gelo seco demais, mas não era hora para reclamar. Música libidinosa entrando pelo corpo, fervilhando cada célula. Entra em cena a mulher mais poderosa do mundo. Começa a dança da sílfide ardente e todos os olhares voltam-se a ela. Esse saber a faz sentir-se bem, cobiçada e excita-se. O mover do corpo melhora vertiginosamente diante da descarga estimulante que o sangue recebera. A platéia pulsa a cada giro, a cada simples passo da dança carnal que ali se faz. É quase um ensaio de coito. Uma performance sexual estilizada. Pasmos estão os que a vêem. Loucos de desejo pela musa da noite. Sabem todos que quanto maior o lance, mais chances terão de saciar a vontade do fruto que agora saia de cena.

Alea jacta est. Combinados todos feitos. A peça mulher é vendida ao seu consumidor. Nesta hora é que a circunstância diminui o brilho e glamour de instantes atrás, mas nem por isso, desiste da missão. O prazer e o “show” devem continuar.

Como num ritual sagrado, a sacerdotisa da libido sentiendi faz a iniciação de seu neófito retirando cada peça de sua roupa deliciosamente, mostrando toda a volúpia que a faz ser considerada a melhor. O iniciado assiste tudo com muita atenção e ao pedido da dama, despe-se. O ambiente é de penumbra, uma música ao fundo dá continuidade à canção que ritmou a dançarina, prolongando no antro o espetáculo de outrora.

Ele levanta-se, não se agüentando mais, indo ao encontro do corpo que o instiga. E com um canivete que trouxera, corta as vestes íntimas restantes dela. Ela se assusta. Ele a acaricia com a navalha e a acalma. Brincadeira perigosa e sensual. Sobe e desce pelo corpo, vão baixando e recostam na cama. Ele deita de bruços.

Sua “compra” pergunta-lhe sobre fantasias. Ele titubeia ao responder, ela entende – os anos de experiência que a ensinaram muito, lhe informam como proceder. Ela pega o preservativo na bolsa. Procura um meio que lhe ajude a atender ao pedido. Encontra. Derrama um gel sobre si e com o corpo esfrega-o contra o dorso do parceiro. O prazer intensifica-se. Ele agora com determinação pede. A protuberância anatômica adentra a cavidade. A dor e o prazer se fazem sonoros. Respiração ofegante. Taquicardia. O vai e vem acentua-se. Gemidos. A cama suja-se com o líquido esbranquiçado que jorra dele. Ela ainda em cima, no dorso, movimentando-se. Mais um pouco. E de seu membro vaza o gozo leitoso. Resfôlego.

Um pouco menos torpe agora, saciado, ele, cônscio do que fizera, empurra o ser que tanto lhe deleitara e começa a proferir vocábulos de baixo calão vorazmente. Seu superego voltara com todo vigor. O erro, pensou, deveria ser silenciado. Entre golpes e agressões de todas as formas, a cabeça dela choca-se contra a parede. Sangue. O canivete termina o começado. Como um animal que destroça uma presa, estocava a lâmina no que já era cadáver. Sentia-se resguardado agora, ainda que a catexia fosse inerente.

Uma boa quantidade de dinheiro esconde qualquer “acidente”, não aconteceu diferente neste caso.

Agora ela não precisaria mais sonhar pensando em como tudo iria acabar. Naquela noite não chegara mais cedo. Naquela noite era uma, como tantos.

A SALA

Na sala que nada tinha de extraordinária ou excêntrica, o cigarro ainda queimava. Ele recostado a poltrona de tantos anos, observa a cena respirando com sofreguidão. Nada tiraria a atenção dele naquele momento. Ela ali, há poucos centímetros de distância dele, sobre o tapete branco de chamois, alvíssimo, mas que aos poucos tingia-se pelo puro carmim que dela escoara… ela ainda ria, sorria, olhava para ele com um ar de gratidão que não era concebível – como ela poderia estar grata depois de tudo que acontecera? – a poltrona tinha respingos do rubro sangue, a camisa dele também, não se sabe de quem era esse sangue… a essa hora os líquidos vitais mesclavam-se num só fio de vida.

Era o que ambos tinham, um fio tênue de vida. Ainda deu para ouvir as últimas palavras que ele proferiu: agora sim estou feliz!

Não sei se ela conseguiu ouvir, uma vez que suas pálpebras já estavam cerradas.

O tapete todo mudara de cor. Deslumbrantemente o vermelho vivo destacava naquela saleta completamente clara.

Ele tentou levantar-se, mas o esforço causou o rompimento de mais uma artéria que os fios de arame farpado rasgaram. Fluía dele com mais rapidez o que o matinha vivo. O coração palpitava lentamente. Os olhos não a viam mais. Um último suspiro.

Um cheiro férrico tomava conta do lugar e era absorvido pelas paredes. Ninguém sabia o que havia acontecido ali.

O sangue vertido se alastrava preenchendo os espaços da minúscula sala. Subia pelas paredes e dava a cor para cada uma delas.

O amor, a ira, a vingança, a paz, a morte exalada de ambos era absorvida pelas paredes.

Ninguém mais sabia o que acontecera ali.

Mortos os dois definitivamente.

Um tremor abalou o lustre. Paredes todas no chão. A sala oculta tudo o que aconteceu ali.

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