Archive for março, 2008

As palavras são…

As palavras são tingidas
Já se encontram aqui
Apenas ganham materialidade
Forma
Ao passo que movo os dedos
As palavras são fingidas
É assim que trago
Seu retrato sem voz
Seu recado sem cor
Das que
sempre existiram
E sempre existirão
As palavras são sentidas
Ainda que não haja mais vida
Porque antes dela já eram
E delas escravo
Poeta, portador
Carrego o fardo
As palavras são feridas
São vozes de outro mundo
Que mudo transponho
O real ao sonho.

E Maria…

E Maria,

decidida ia

Apesar da lida

da ida tardia

sentia que devia

partia

absorvida sem energia

parte de si morria

sumia

de longe ele a via

no cemitério, de mãos vazias

em busca do amor que partia

ele no caixão dormia

a lágrima não alivia

tonta, já, sandia

Maria não tem agora

sua companhia

e dia após dia

sabia que já não vivia

saía

pegava sempre a mesma via

junto a cova do amado jazia

simetria

(sangria)

 

 

dicotomia

medo de viver ou pavor da morte?

ímpar

Não poderia dizer como me sinto. Não consigo encontrar palavras que descrevam essas sensações. Sabe quando se quer dizer o quanto se ama uma pessoa e não consegue encontrar palavras que dêem conta? Estou assim, numa maneira inversa. Estou profundamente vazia, oca, pesada. Estou carregando comigo toneladas de tristezas. A solidão quase me impede de andar, fardo tão difícil de carregar. Emudeço. Não tem nada aqui dentro. É um sentimento inexplicável.

Morta. É assim que vivo. Um aglomerado de células que funcionam para nada. Minha alma me abandonou. É uma espécie de limbo. Não acho nada engraçado, sequer acho triste também. Sinto-me letárgica. Algo no mundo, avulso.

Não tenho afinidades de fato. Não ouço as mesmas coisas que ouvem da mesma maneira. É uma singularidade fatal. É como o sonho (premonitório) de criança que eu tinha repetidas vezes: eu ali, pequena e ao meu redor nada…quilômetros de nada, apenas o vazio externo e interno, a dor e a certeza de que não tinha ninguém.

Cresci assim. Talvez tenha me tornado um monstro. Ou um deus. Incrível como ao menos me parece que não preciso das pessoas, como elas costumam se precisar. Sinto pouca coisa. O vazio, é fato. Fora isso – a certeza de todo dia- não sei nem se sei sentir. A casca faz algumas coisas. Mecanicidades. Rir, agradecer, ler, olhar, caminhar, dirigir, abraçar, despir, sair, fingir… cadê o sentido de tudo isso? O que não é casca não entende todas essas convenções. Tem algumas preocupações decerto, mas não como eles.

Nunca soube o que quis, mas sempre soube que faltava. A falta sempre foi sentida. Dia após dia, por todos os segundos que se passaram a sempre enorme falta. A impressão de oco é cotidiana. E vejo os bonecos por aí. Sento-me com eles, converso com alguns, raros, estudo com eles. Alguns inclusive me dão raiva de tão nojentos que são.

Apesar disso, compreendo esse mundo. Não empaticamente. É a visão melhor que se tem quando se observa de fora. Percebo as séries de seres que foram feitas. Como cada um entra numa classificação e se comporta como ela. Assim como os animais, cada espécime tem suas atribuições e características, com os humanos não seria diferente. O todo classificatório para eles (porque não me incluo nisso) é falho. Há vários dentro dos homo sapiens, não precisa observar muito para perceber as diferenças e semelhanças entre eles. Agrupamentos com mais, outros com menos, mas sempre em séries. Não me enquadro nelas. Não quero isso. Às vezes talvez queira, ser uma ilha nem sempre é simples e fácil.

Penso que seria mais fácil desligar o cérebro e diluir-me em meio às massas. Fazer o que todos fazem, ir para onde todos vão, pensar (se é que pensam) como todos pensam. Mas vim com defeito de fábrica. Alguma peça faltou e faz falta. Sou o refugo. Indesejável, impensável, nula. Não me faço enxergável. Invisibilidade é uma arma, um abrigo. Se me vissem talvez ficassem chocados. Tanta humanidade. Tanta podridão… todas as coisas que não querem ver, que escondem, que viram a cara. (Dionísio!) Tanta igualdade nisso. Sou homem e nada do que é humano me é estranho.

Mas ninguém quer saber disso. As carapuças e máscaras estão sempre a sua frente impedindo que sintam de fato o que é a vida. Posso estar morta, não me eximo disso. Porém eles também não vivem. Ninguém sente o outro. Ninguém sente a si mesmo. As máscaras não deixam. Os corpos nunca se tocam. Os beijos estão sempre bloqueados pelos véus, que por vezes são bem densos e mais que véus, máscaras de ferro. Torpes. Movimentam-se como bactérias ao serem observadas em microscópio. Não são mais que isso. E não sabem disso. Ignorantes! Pensam ser Napoleão. Sempre. Querem ser semideuses. Os egos sobem, inflam, voam e perderam a noção da realidade há tempos. Barbies da barbárie que desejam ser eternas. E o são. A energia nunca se perde. Mas a individualidade sim. E é ela que não querem perder. Estão em nomes de rua e monumentos. Nos créditos. Nos livros e histórias. Nas memórias que se perdem. Não enxergam que somos apenas massa energética que se expressa de maneiras diferentes, assim como as estrelas, as pedras, as plantas, o que há de mais grotesco e de mais sublime.

Mas falo deles e era de mim que discorria. Não é perda de foco. No sistema, defino o que não sou para mostrar o que sou. E é isso. Uma enorme força. Aquelas dos terremotos e grandes catástrofes naturais. Sempre borbulhando, como na panela de pressão. Como num vulcão. Basicamente um vulcão. A parte visível que não causa dano algum. E a parte que está escondida e que pode vir à tona a qualquer momento é a que importa. Uma enorme força destruidora, arrasadora. Capaz de acabar com tudo. Sim, tudo. Gritos presos.

E o enorme desejo de gritar. De correr sem rumo, sumir, fugir sem destino. Atos que não levariam a nada. Então estou parada. Sou pedra. E sei que me vêem assim. Apesar disso, causo medo. Ao menos naqueles que tiveram a infelicidade de estar mais perto. É proposital. Tenham medo. Até eu mesma tenho medo. Não sei sinceramente do que seria capaz. Contenho sempre. O que faz com que a cada dia a bola de neve cresça. A força aumente. Isso pode ser um aviso. Para depois não dizerem que não avisei. Sou um fractal bastante pontiagudo. Um ouriço. Com pontas voltadas para fora e para dentro também. Espetando o nada. Doendo mesmo assim.

Já pensei em deixar de existir. Seria mais fácil para mim, mais fácil para todos. Mas aprendi a conviver com a falta. Levo tudo isso até ver onde vai dar. Sempre fui curiosa mesmo. E não faço ameaças. Não devo ser uma. Sou apenas algo. Algo talvez imprescindível para o equilíbrio de forças existentes. Sem nome, sem classificação, sem definição. Existo.
E não sei aonde tudo isso vai dar. Preocupo-me com isso. Faz parte da minha constituição obter sucesso no que faço. É inerente. E por isso tantas habilidades. A grandiosa força que existe, que é o nada, manifesta-se das mais variadas formas, dando-me a possibilidade de ser mil. Mas nada me basta. Sempre insatisfeita. Sempre querendo mais e mais. Essa fome que me persegue. Absorvo então como um buraco negro. É outra coisa que sou. Um buraco negro que traga o que circunda. Meus olhos mostram isso. Quando será que fiquei assim? Algo me diz que nasci assim. E ando errante desde então. Sem que nada possa me parar. Assim vagarei sozinha até o final dos tempos. Afastando-me deles. Somos pólos repelentes. Fico a margem. Ponho-os a margem. Observo cada passo. Evitando que aumentem o buraco. Que eu reaja. Manter-me-ei assim. Sempre assim. Sou ímpar.

Ali… está ali, tá vendo?
Ali?
É ali, olha!
Ali onde? O que?
Ele ali…
Ah.. ele…Ele? Como assim? Quem é ele?
Olha… ali…
Não to vendo …
Mas ele tá ali…
Eu não sei quem é ele, então não tenho como ver se está ali.
Não tem como não ver, ele tá ali.
Mas eu não vejo!
Olha naquela direção… bem ali…
Tô olhando e não vejo coisa alguma.
Se esforce… tô apontando até…
Estou me esforçando, mas não vejo…
Como não? Tá ali! Ele tá lá…
Não tem nada ali…
Tem!
Não tem…
Claro que tem, eu tô vendo cada detalhe… as cores, sua expressão, seu jeito, sua forma…
Detalhe? Não enxergo ninguém… nada, como haver ainda detalhe?
Ah, agora você viu!
Vi? Vi o que?
Você disse…
Eu disse? Disse que não vi nada.
Se você não viu nada, é porque viu alguma coisa…
Não, você não me entendeu… eu vi “nada”…
Então você o viu… É ele!!!
Ele quem?
O nada!

Ponto de partida

Fazia dias que não saía de casa. Dias que não comia direito. Aquele cheiro ainda estava nas roupas, nas paredes, no chão, nos móveis, no ar que respirava, na comida, impregnado. Cheiro de putrefação, de carne, de morte, de fantasmas. Não parava de pensar, de lembrar, de chorar. De chorar por dentro, pra si, as lágrimas não tinham força para sair fazia já algum tempo.

Tomou por fim o vinho. E mais três remédios. Nada remediava a dor, a insônia, a lacuna. Não era mais humano, era só buraco. Oco. Andava já curvado, pois o peso dos ossos assim o conduzia. Tinha o mundo nas costas e não sabia para onde ir. A música entrava pelos ouvidos e percorria suas veias, o vinho – o mesmo que tomara em outras datas – era insoso agora, as cores fugidias e um tom de cinza brindava o ambiente de modo peculiarmente bonito contrastando com o avermelhado do carpete.

A linda criatura olha para mim, me sorri, me chama. Deitado no chão, sinto seu toque em meus cabelos, consigo fitá-la, entrelaço meus dedos nos seus. Evanescente.

Não sei mais se é noite ou dia. Não quero saber. Não quero ser. Não quero estar. Não quero morrer. Vejo coisas. Me lavo. Mas a água torna sangue, uma espécie de Caná revisitada. E o cheiro, o perfume putrefato que não sai? Lavei todas as minhas roupas, usei o que poderia haver de mais forte, mas nada arranca esse olor de ferro, que parece estar dentro de mim, como se eu emanasse decomposição. Vomito.

O espelho não me mostra mais. Não sei o que é aquilo que aparece. Uma estranha figura descomposta, feia, informe. Volto a não mais sentir me. Meu corpo todo formiga, olho os arredores. Tudo imutável, tudo irreconhecível. A decoração da dor agulha minha carne. Vejo penduradas como quadros pessoas que não conheço. A tevê liga. Uma mulher fala coisas que não entendo, mas a música continua tocando, a mesma música. É como uma língua qualquer primitiva. Ou talvez não esteja mais entendendo nada. Me esforço, aumento o volume, mas a música não me deixa ouvir com atenção. De onde ela vem? Pra quê tentar entender também? Não quero saber de nada, se não me ouvem, pra que ouví-los?

Vencido pela música. Danço. Ela me leva, ela dança comigo e danço com eles. Todos dançam aqui. Mas estou cansado, quero dormir, quero esquecer.

Goladas de vinho.

Dorme.

No sonho os deuses oníricos o visitam. Espalham criaturas eólicas fragmentadas, espécie de anjos aos pedaços, pernas e tronco, cabeça e braços, unhas e cabelos montados caoticamente. E muitas bocas e vozes. Mas até dormindo o cheiro e a canção não apartavam. Eram inseparáveis dele. Inerentes?

Havia neve. Nunca estivera em lugar algum com neve, mas sentia sua textura, sua frieza, sua qualidade de floco. E caminhava. Sem rumo, respiração ofegante, parecia que fazia muito tempo que estava vagando, estava fraco, as pernas pesavam. Começava a congelar-se. E isso dava uma sensação boa de leveza, de sair de si, de levitar… os membros inferiores ficavam insensíveis, seu sangue parecia demorar mais para transitar entre as veias. Ao longe avistou alguém. Uma mulher. Ruiva, de um carmim que chamava a si toda a atenção naquele infindável mundo branco. Ela era bastante pálida, e agora estava a uma distância em que era melhor visualizada. Ela vestia uma capa negra e roupas escuras, e não parecia se importar com o frio aterrorizante. Estonteado com sua beleza nem viu que outrem correndo chegava e portava uma arma – um punhal prateado – com o qual, ao abraçar a mulher ruiva e beijá-la, a apunhalou. A neve tingira-se. A seiva vital ia esvaindo e ela mudara sua feição. Mais punhaladas. Ele tentou impedir, mas não conseguia se mexer, nem falar. A ruiva o olhava fixamente. Mas o homem que a sacrificava, nem percebia sua presença. O rosto pálido tornou-se impossivelmente mais branco, os cabelos tingiram-se e ficaram ainda mais vermelhos, os olhos também.

Não entendendo o que acontecia a sua frente e nem consigo mesmo, olhou para o horizonte procurando uma saída, alguém. O homem do punhal desaparecera. Não havia mais nada ali. Ao lançar os olhos novamente para a mulher, notou um papel em sua mão, e com um esforço homérico, deu alguns passos para pegá-lo. Deveria ser algo imprescindível, pois ela ainda o segurava com bastante força. Ele retirou cuidadosamente e leu, o que talvez não quisesse ter lido: -É culpa sua!

Nisto uma profusão de sentimentos tomou conta de si. Ficou torpe, tamanha a força daquelas palavras. Enxergava com dificuldade. Tremia mais que antes. Fraquejou. Perdeu os sentidos. Caiu.

O pesadelo da vida imaginária o trouxe de volta ao pesadelo da vida real.

Lá dentro a escuridão. Lá dentro de si, dentro da casa, dentro de seu mundo. Trevas. Não sentia nada. Apenas fome. Dirigiu-se a geladeira, procurou algo. Mas tanto tempo fez com que os alimentos estragassem. Fechou a porta do refrigerador. Pegou um pedaço qualquer de carne. Cortou em pedaços menores. Salgou. Pôs na panela de qualquer jeito, não sabia fazer comida mesmo.

Comi os pedaços com gosto. Salivei. Não deixei muito tempo no fogo para comer filés sangrentos. O sabor era diferente mesmo como havia lido. Mas divinamente saboroso. Acompanhara sua refeição com outra taça de vinho. O paladar voltou, ainda que fraco.

Mais tarde, vômito.

Tinha desligado todos os aparelhos telefônicos. Puxado os fios do computador. Jogado na parede rádios. Restava apenas a televisão que ligava e desligava como bem entendia.

la fée

Apenas a mão

Pra não cair desse precipício

Você pode me ouvir?

Pode me ajudar?

Eu não queria cair

Eu queria voar

Mas sou apenas pedra

E tenho medo

Estou perdida?

Você pode me ouvir?

Quero apenas a tua mão

Porque é ela que eu vou puxar

Pra te levar comigo cânion abaixo

Eu não queria cair

Não queria ter que gritar

Vamos

Dê-me a mão

Será bom pra você cair

Por um momento vamos voar

Será lindo!

Metros percorridos em segundos

O chão cada vez mais próximo

E quem sabe seremos livres

Dê-me a mão, dê-me a mão

Eu não quero cair

E não quero parar

Você pode me ouvir?

Eu não sei voar…

canto

(para o fantasma que me acompanha)

E o fatal aconteceu

Proveu aquela triste história

Da memória de tempos atrás

E mais, tudo o que agora podia ver

Acharam poder, o lugar encantado

Não guardado por fadas, elfos

Nem espadas, a fenda do tempo, um universo paralelo

Uma espécie de elo, um grilhão bendito

Era infinito o agora

E lá fora, nada mais existia

Ela sabia que ele sempre estivera ao lado

Provado de sua eterna companhia

E outro dia, foi sobre ele que ela escrevera

Mostrara a ele que sabia

Queria que ele lesse

E se pudesse responder…

Mas o ser apenas, como sempre, não respondeu,

Se mexeu, mostrou que estava ali

Em si, ela era de fato dele

Era ele, que o que ela nunca soubera…

sou

Sou fácil

Sou ego

Sou cheiros, risos, dor

Sou mau

Sou face do caos,

Sou etérea,  deserta,  céu

Sou pedaço, parte, complemento, parede

Sou dez, sou agora, sou vil

Sou de ver, de comer, de sentir

Sou, como deveria ser

E sou quem sabe mais um pouco

Sou louco

Dos sãos, sou o ansiar, o prever

Sou o que sou

Osso do seu ser

O ser que ostenta

Ser trinta, sou

Mas se algo veio

Faltou e não passou

É isso…

É isso…

O que sou.