ímpar

Não poderia dizer como me sinto. Não consigo encontrar palavras que descrevam essas sensações. Sabe quando se quer dizer o quanto se ama uma pessoa e não consegue encontrar palavras que dêem conta? Estou assim, numa maneira inversa. Estou profundamente vazia, oca, pesada. Estou carregando comigo toneladas de tristezas. A solidão quase me impede de andar, fardo tão difícil de carregar. Emudeço. Não tem nada aqui dentro. É um sentimento inexplicável.

Morta. É assim que vivo. Um aglomerado de células que funcionam para nada. Minha alma me abandonou. É uma espécie de limbo. Não acho nada engraçado, sequer acho triste também. Sinto-me letárgica. Algo no mundo, avulso.

Não tenho afinidades de fato. Não ouço as mesmas coisas que ouvem da mesma maneira. É uma singularidade fatal. É como o sonho (premonitório) de criança que eu tinha repetidas vezes: eu ali, pequena e ao meu redor nada…quilômetros de nada, apenas o vazio externo e interno, a dor e a certeza de que não tinha ninguém.

Cresci assim. Talvez tenha me tornado um monstro. Ou um deus. Incrível como ao menos me parece que não preciso das pessoas, como elas costumam se precisar. Sinto pouca coisa. O vazio, é fato. Fora isso – a certeza de todo dia- não sei nem se sei sentir. A casca faz algumas coisas. Mecanicidades. Rir, agradecer, ler, olhar, caminhar, dirigir, abraçar, despir, sair, fingir… cadê o sentido de tudo isso? O que não é casca não entende todas essas convenções. Tem algumas preocupações decerto, mas não como eles.

Nunca soube o que quis, mas sempre soube que faltava. A falta sempre foi sentida. Dia após dia, por todos os segundos que se passaram a sempre enorme falta. A impressão de oco é cotidiana. E vejo os bonecos por aí. Sento-me com eles, converso com alguns, raros, estudo com eles. Alguns inclusive me dão raiva de tão nojentos que são.

Apesar disso, compreendo esse mundo. Não empaticamente. É a visão melhor que se tem quando se observa de fora. Percebo as séries de seres que foram feitas. Como cada um entra numa classificação e se comporta como ela. Assim como os animais, cada espécime tem suas atribuições e características, com os humanos não seria diferente. O todo classificatório para eles (porque não me incluo nisso) é falho. Há vários dentro dos homo sapiens, não precisa observar muito para perceber as diferenças e semelhanças entre eles. Agrupamentos com mais, outros com menos, mas sempre em séries. Não me enquadro nelas. Não quero isso. Às vezes talvez queira, ser uma ilha nem sempre é simples e fácil.

Penso que seria mais fácil desligar o cérebro e diluir-me em meio às massas. Fazer o que todos fazem, ir para onde todos vão, pensar (se é que pensam) como todos pensam. Mas vim com defeito de fábrica. Alguma peça faltou e faz falta. Sou o refugo. Indesejável, impensável, nula. Não me faço enxergável. Invisibilidade é uma arma, um abrigo. Se me vissem talvez ficassem chocados. Tanta humanidade. Tanta podridão… todas as coisas que não querem ver, que escondem, que viram a cara. (Dionísio!) Tanta igualdade nisso. Sou homem e nada do que é humano me é estranho.

Mas ninguém quer saber disso. As carapuças e máscaras estão sempre a sua frente impedindo que sintam de fato o que é a vida. Posso estar morta, não me eximo disso. Porém eles também não vivem. Ninguém sente o outro. Ninguém sente a si mesmo. As máscaras não deixam. Os corpos nunca se tocam. Os beijos estão sempre bloqueados pelos véus, que por vezes são bem densos e mais que véus, máscaras de ferro. Torpes. Movimentam-se como bactérias ao serem observadas em microscópio. Não são mais que isso. E não sabem disso. Ignorantes! Pensam ser Napoleão. Sempre. Querem ser semideuses. Os egos sobem, inflam, voam e perderam a noção da realidade há tempos. Barbies da barbárie que desejam ser eternas. E o são. A energia nunca se perde. Mas a individualidade sim. E é ela que não querem perder. Estão em nomes de rua e monumentos. Nos créditos. Nos livros e histórias. Nas memórias que se perdem. Não enxergam que somos apenas massa energética que se expressa de maneiras diferentes, assim como as estrelas, as pedras, as plantas, o que há de mais grotesco e de mais sublime.

Mas falo deles e era de mim que discorria. Não é perda de foco. No sistema, defino o que não sou para mostrar o que sou. E é isso. Uma enorme força. Aquelas dos terremotos e grandes catástrofes naturais. Sempre borbulhando, como na panela de pressão. Como num vulcão. Basicamente um vulcão. A parte visível que não causa dano algum. E a parte que está escondida e que pode vir à tona a qualquer momento é a que importa. Uma enorme força destruidora, arrasadora. Capaz de acabar com tudo. Sim, tudo. Gritos presos.

E o enorme desejo de gritar. De correr sem rumo, sumir, fugir sem destino. Atos que não levariam a nada. Então estou parada. Sou pedra. E sei que me vêem assim. Apesar disso, causo medo. Ao menos naqueles que tiveram a infelicidade de estar mais perto. É proposital. Tenham medo. Até eu mesma tenho medo. Não sei sinceramente do que seria capaz. Contenho sempre. O que faz com que a cada dia a bola de neve cresça. A força aumente. Isso pode ser um aviso. Para depois não dizerem que não avisei. Sou um fractal bastante pontiagudo. Um ouriço. Com pontas voltadas para fora e para dentro também. Espetando o nada. Doendo mesmo assim.

Já pensei em deixar de existir. Seria mais fácil para mim, mais fácil para todos. Mas aprendi a conviver com a falta. Levo tudo isso até ver onde vai dar. Sempre fui curiosa mesmo. E não faço ameaças. Não devo ser uma. Sou apenas algo. Algo talvez imprescindível para o equilíbrio de forças existentes. Sem nome, sem classificação, sem definição. Existo.
E não sei aonde tudo isso vai dar. Preocupo-me com isso. Faz parte da minha constituição obter sucesso no que faço. É inerente. E por isso tantas habilidades. A grandiosa força que existe, que é o nada, manifesta-se das mais variadas formas, dando-me a possibilidade de ser mil. Mas nada me basta. Sempre insatisfeita. Sempre querendo mais e mais. Essa fome que me persegue. Absorvo então como um buraco negro. É outra coisa que sou. Um buraco negro que traga o que circunda. Meus olhos mostram isso. Quando será que fiquei assim? Algo me diz que nasci assim. E ando errante desde então. Sem que nada possa me parar. Assim vagarei sozinha até o final dos tempos. Afastando-me deles. Somos pólos repelentes. Fico a margem. Ponho-os a margem. Observo cada passo. Evitando que aumentem o buraco. Que eu reaja. Manter-me-ei assim. Sempre assim. Sou ímpar.

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2 Comentários »

  1. janice diniz Said:

    Obrigada pela visita, pelas palavras e pelo incentivo mas… independente de tudo, tu escreve bem pra caralho! Não tecerei uma análise literário-lingüística, não costumo usar fita métrica para talentos ilimitados e profundos…ouço o meu coração de contadora de causos e ele adorou!

    vou pôr um link do teu blogue no meu, nada de pontes.

    abraço

  2. janice diniz Said:

    Não é bondade, não: é constatação, pura e sem gelo.

    O blogue do Diego é Sarna Virtual

    http://www.sarna_virtual.blogger.com.br

    Já tá “linkado” no meu (que a língua portuguesa me perdoe…rs)

    abração


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