fragmentos

É engraçado estar sem chão. Você flutua… cai. Os pedaços dele por todas as partes, eles caindo menos rápidos que eu mesma. Sem onde me prender, sem ter como parar a queda aceito a condição. Resigno. Por enquanto. Só enquanto não sei o que fazer. Tenho medo de saber o que fazer. Melhor a dúvida. Enquanto caio vejo pedaços da minha vida. Sabe aquela coisa de pessoas que morrem e dizem que viram a vida como um filme? Quase isso. Vejo trechos específicos, com pessoas especificas. Dores. Sorrisos. Dias e mais dias. Momentos que marcaram. Momentos que não queria lembrar.

Meus pés estão apoiados no ar, que diminui a velocidade da queda. É uma sensação interessante. Por horas queria chegar ao final disso tudo, por horas não, medo do que vou encontrar. Sigo abismo abaixo sentindo todos os sentimentos possíveis. Vivendo de maneira única. Aprendo a transpor limites. Conheço novas fronteiras. Sempre cabe mais, sempre surge mais. É como se tomasse uma droga nova. A química do meu corpo reagindo a outra e me fazendo sentir-me, porque quando tudo está como deve, não nos sentimos de verdade.

Não como mais. É um equilíbrio entre o fora e dentro. Assim a sensação de vazio se completa.  Não há necessidade neste ponto disso. Conforme caio percebo que partes minhas se destacaram de mim. Perdi meu orgulho. Perdi meu amor-próprio. Perdi meu futuro. Perdi uma boa parte de mim. E não sei se me regenero, assim como os rabos de lagartixa e os fígados. Já não via muita graça no meu mundo com chão. Ao menos, agora nesta queda infinita, tenho bem menos a perder.

Perdi-me de mim mesma. Sou um átomo tão oco. No entanto tudo é intenso. Aprendi a chorar novamente. A respirar de outra forma. Aprendi que dói viver, como as crianças que nascem sabem bem. Sinto frio. Estou congelando. Eu que sempre fui tão quente. Mas tudo é ermo e gelado. E não tem mais ninguém aqui. Caindo, caindo. Cercada de pedras, de pedaços de chão. De medo. Estou petrificada de tanto medo. Apavorada. Ainda que já esteja despencando há tempos. Meus olhos ardem. Pesam. São as únicas coisas que pesam. O resto é bem leve. O restante do corpo perdeu seu conteúdo. Perdeu o que o fazia pesar. Estão sempre com sono. Mas o sono só está nos olhos. A alma não se cansa de tentar. Está cansada, é fato. Liquefeita. Rala. Esvaindo-se na minha mão. E que corpo é esse agora? Algo bestial. Partes trocadas e montadas a bel prazer, do caos. O ato ou efeito que descompôs tão rapidamente, me fez tentar recuperar o que sobrou. E ficou assim. A la frankenstein mode. Não posso escolher para onde ir. Simplesmente para baixo. E além. I n f i n i t a m e n t e.

É este eclipse de mim mesma. Náuseas. Vomitaria se tivesse como. E não desejo dó por isso, nem por nada. É escolha. Querer: “Eu quero!”. Embora sem minhas rédeas. Embora sem direção. Desejo. E pra descrever tudo, precisaria de todas as folhas do mundo. De palavras de todas as línguas. E seria lacônica.

E existe tanto amor. Incrivelmente forte e grande e poderoso. Muito maior do que sabia. Ganhando contornos mais amplos. Porque estou partida é que existem mais lugares para armazenar esse amor. Talvez entenda melhor agora. Como estar em carne-viva. Estranhamente masoquista. Permitindo-me ir mais longe. Sublimar-me. Como um ato de purificação. A espera. Preparando-me para muito. Jejuando. E não há vozes. Não há olhares. Nem aquele. Especial.

Por isso velo. No eterno cair, velo o morto. Beijo suas mão frias. Sempre frias. Agora duplamente frias. Aqueles que querem dormir, marejam. Caem no nada. Não há mais nada. Não aqui. Mas um grande tumulto em volta e lá fora. Outra. O grande espetáculo da vida. E nada é inteligível ou tangível. Apenas é.

Como disse uma Pessoa: não sou nada. Como eu escrevia antigamente: je suis rien.

Isso é morar (ou cair) em nihiland.

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1 Comentário »

  1. Janice Diniz Said:

    Fiquei sem fôlego. Que poderosa e urgente escrita! Ah, eu podia escrever sobre a concisão perfeita das frases, estrutura textual decomplicada, técnica direta, densidade no conteúdo e blá blá blá… Isso não importa! Importa sim a queda, o nada, a angústia e o vazio. Coisinhas humanas e que fazem toda a diferença entre o mocinho feliz com sua mochila de faculdade e os outros, cada vez mais Outros com a sua consciência de finitude e, contraditória, vastidão.

    Como sempre: excelente!

    Abração


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