Archive for agosto, 2008

Inconsciente coletivo….

O mundo não é cor-de-rosa. As pessoas não são felizes. Não conheço meu vizinho. Dói mais quando respiro. Não acredito que ele fez isso. Quem é aquela ali? Se você acha que é melhor, faça. Eu estou sozinho, ainda que existam muitas pessoas ao meu redor. Queria colo. E o que vou fazer? Ainda bem que está chegando o fim de semana. To gorda. Será que vou? Desculpa! Que dor de barriga! Essa aula não termina nunca. To indo mãe. Claro! Me liga! Quanto tempo! Nossa como você cresceu! Feia! Onde será que vou levar ela? Vou fingir que é engano. Queria mais um pedaço. Que legal! Te odeio! Quero aquele! Que sono, nossa! Arroz e feijão de novo! Não sei qual escolher. Ai não chega nunca! Gostosa, hein! Tiiiiaaa! Por que estou fazendo isso?

Onde quero chegar com tantas frases?Também me fiz a mesma pergunta. Existe por certo um falar coletivo. Idéias, atos, movimentos e afins que herdamos, desde que as necessidades dos homens deixaram de ser só esconder-se do leão que ia atacá-lo ou combinar como seria a caça. As carências humanas em todos os sentidos foram se complexificando e são compartilhadas por todos os Homens.

Homo sum, nihil humani a me alienum puto. (Sou homem, nada do que é humano me é estranho)

Você com certeza já disse ou pensou, senão todas, algumas dessas frases. Estes mesmo pensamentos estão grafados em paredes, pedras, madeira, papiro, papel desde os mais remotos tempos. As angústias pela aparência, os sintomas biológicos, o sentimentos desordenados, as dúvidas, as ansiedades, os vocativos, tudo é da mesma maneira, qualquer que seja a língua usada pra expressar-se. E dessa forma penso que a evolução que tanto nos gabamos na verdade é parcial. O homem não evoluiu. Mata, fere, respira, se alimenta, caminha, excreta, fala, age como sempre fez. Uma inconsciência coletiva, primitiva o homem. O faz retornar as suas raízes mais profundas, onde impera o dionisíaco lado do ser. É fato. Basta ouvirmos Tambores! Sons de percussão e bateria e estamos todos a pulsar numa mesma freqüência. O ritmo das raves simula sons primordiais e dançamos. Dance, monkeys, dance!- já dizia o vídeo do youtube.

E acredito que isso deva fazer muito bem ao macaco evoluído que usa a fantasia de gravata e terno e mira sua vida no tic-tac. Se não fizesse bem, não mais seria assim, e pelo que sabemos, ainda o é. A essência estranha da qual fomos feitos nos irmana nesse mundo-aldeia e nos dá a esquisita impressão de que somos conhecidos. Talvez seja essa a reencarnação. O espírito comum faz parte de todos os corpos e fará parte por todo o tempo que o tempo permitir. E morremos, e viraremos matéria putrefata, e seremos alimento, alimentaremos outros seres, de outros nós mesmos.

É o ciclo-sem-fim.

Os monstros

Desde os tempos mais imemoráveis o temor, o medo, o pavor, o pânico são sentimentos bastante conhecidos dos hominídeos. Pensar em criaturas que os comessem, aniquilassem, destroçassem etc. sempre fez um arrepio percorrer a espinha dos indivíduos.

Ao passo que morria de medo, matava de medo. E matava não só por medo. Por poder, pra se sentir vivo, pra demonstrar força, para aliviar as tensões. E o homem virou lobo do homem.

E a cultura do terror foi crescendo. Circo dos horrores, hospícios flutuantes, guerras, epidemias, mutações, abortos, miséria, canibalismo, capitalismo, parricídios, suicídios, cirurgia plástica, crianças gerando crianças, bomba atômica, inflação, pedofilia, igrejas, crimes passionais, câncer, reality shows, analfabetismo, idiotismo, globalização, egolatria, robotização e isso é só pra começar.

A literatura sempre se interessou pelo horror, o cinema também, todas as cores já pintaram a monstruosidade. Mas de fato monstros nunca jamais foram vistos.

Como poderíamos retratá-los com tantos detalhes, tantas formas e tantos traços comuns? Por que tanta obsessão nesse retrato?

Seres que em sua aparência angariam para si toda a sorte de males que possa existir. Toda a falta de beleza, de charme, de atrativos possíveis. São entes que reuniram para si tudo o que o mundo despreza e, por conseguinte são desprezados também. A mágica disso reside no fato de as pessoas sentirem empatia, verem o mais profundo de si nas ações maléficas, porque o monstro de fato é a própria condição humana, é a expressão de seus horrores internos, não com o que elas se escandalizam, mas os desejos que a mente encerra, as perversões, as bizarrices e os mil nomes que a isso se pode dar. Verem sua própria monstruosidade e seus próprios defeitos.

É junto com o monstro que você executa o que só permite que no seu cérebro desenvolva. Ele dá vazão aos sentimentos. Você faz junto com ele a agressão, a subversão.

É o vilão, o monstro que dá o gosto à história, sem antagonista, não existe uma boa trama. E o mocinho, é apenas, o reforço, corroborando seu superego, sempre regulando suas ações de acordo com a sociedade em que se insere.

Por isso criamos os monstros com tamanha precisão. É nosso espelho interno refletido na arte.

cheiro de chuva

chamo a chuva que chove

enxágua toda mágoa

encharca todo o chão

chega ensopando o charco

a enxurrada leva consigo o marco

cochicha baixinho a canção

chora chovendo a água

amo a chuva que chove…

Pra poder ser…

Busca-se o diamante, quando se lapida

E encontra-se o sublime, no cerne do grotesco

Talvez seja isso que não perceba

Que as coisas de fato, que duram

são testadas, como o ferro no fogo

pra poder ser.

torpe.

Torpe.

Membros pesados e falta de força.

Sempensamentocomplexo.

Confusão.

A letras trocadas, trincadas,  indo embora com dedos que desobedecem lesos.

E a música de calma… A vida não pára.

Mas parece estar desacelerando. Aos poucos.

parando.

Substânciacontroladominaenrola.

Estou cedendo; nannda 27: vamos conversar?

Como você está?

Ela se foi, quer deixar recado?

Estrelagris, mundogris, solidãogris.

O açougueiro

Lá estava ele. Não era muito alto. Estava uns bons quilos acima do peso e era calvo, daquele tipo de calvície que parece tonsura.

Estava atrás de uma mesa, de madeira meio escura, não tratada, uma mesa rústica dessas que vemos tanto por aí.

Calçava botinas. Vestia um jeans sujo e velho e uma camisa que outrora fora branca, agora já bem amarelada pela falta de cuidados  e estava com os dois botões próximos a gola abertos.

Ouvia uma música no rádio. Uma sinfonia, talvez Bach, talvez Mendelssohn, talvez…. Era melodiosa e forte. Tocada num volume mais alto do que o de costume.

Fazia um calor infernal e o ventilador engordurado não dava conta nem de refrescar o primeiro metro a sua frente. Estava quebrado há tempos, não funcionava numa velocidade razoável e fazia um barulho estridente e irritante a cada giro, mas que não incomodava muito naquele momento por causa da música.

O suor escorria de seu rosto, manchava a camisa, umedecia a calça. O calor e o esforço pelo uso da serra com vigor, com gosto eram a causa de tanto suor… Apesar disso, dava pra ver em seus olhos a satisfação com a qual realizava aqueles movimentos de vai-e-vem.

Terminando de serrar um pedaço da carne, pendurou-a num gancho na parede. Eram vários ganchos, tamanhos variados, um para cada peça serrada.

As paredes dos ganchos eram bastantes sujas, o sangue que escorrido das peças as tingiam e conforme a cena, ninguém as limpava.

No ar quente, abafado, um vapor de odor pitoresco, uma mistura de cheiros, que vêm daqui e dali, de toda parte. Ferro, gordura, lixo, poeira.

Um estrondo tira a atenção dos cheiros. Era ele, que tinha largado a serra na mesa, jogado, assustado com o que vira: um bigato… daqueles bem rechonchudinhos, bege clarinho, com as extremidades mais escuras, marrozinhas. O bichinho ainda se movia. Estava tentando sair do poro do osso, mas não tendo a menor noção de onde estava, caiu na mesa, junto a uma poça de sangue formada pelo que escorria da carne presa ao osso que ele estava.

Ele ficou ali, observando o bigato por um longo tempo. Questionava a razão da existência do animal. Era engraçado vê-lo movimentando-se. Tonto. Com muito esforço ele sai da pocinha e ao mexer-se deixa um rastro de sangue. O bigatinho ia cair da mesa se andasse um pouco mais. Ele então, por isso, o pegou com a mão, impedindo a queda. Olhou-o bem de perto, aproximando aos olhos e, depois de tanto analisá-lo, o comeu.

Os pedaços de corpos da parede assistem a mais um assassinato.

Sinfonia terminada. Notícia: “açougueiro humano faz mais uma vítima”.

se sentir assim…

se sentir assim
sempre sentida
só servindo
simplesmente saindo
soa suave
somente seduzida
semente saida
sina sincronica
sinfonia sofista
simbólico semblante
sorve sugas
some