O açougueiro

Lá estava ele. Não era muito alto. Estava uns bons quilos acima do peso e era calvo, daquele tipo de calvície que parece tonsura.

Estava atrás de uma mesa, de madeira meio escura, não tratada, uma mesa rústica dessas que vemos tanto por aí.

Calçava botinas. Vestia um jeans sujo e velho e uma camisa que outrora fora branca, agora já bem amarelada pela falta de cuidados  e estava com os dois botões próximos a gola abertos.

Ouvia uma música no rádio. Uma sinfonia, talvez Bach, talvez Mendelssohn, talvez…. Era melodiosa e forte. Tocada num volume mais alto do que o de costume.

Fazia um calor infernal e o ventilador engordurado não dava conta nem de refrescar o primeiro metro a sua frente. Estava quebrado há tempos, não funcionava numa velocidade razoável e fazia um barulho estridente e irritante a cada giro, mas que não incomodava muito naquele momento por causa da música.

O suor escorria de seu rosto, manchava a camisa, umedecia a calça. O calor e o esforço pelo uso da serra com vigor, com gosto eram a causa de tanto suor… Apesar disso, dava pra ver em seus olhos a satisfação com a qual realizava aqueles movimentos de vai-e-vem.

Terminando de serrar um pedaço da carne, pendurou-a num gancho na parede. Eram vários ganchos, tamanhos variados, um para cada peça serrada.

As paredes dos ganchos eram bastantes sujas, o sangue que escorrido das peças as tingiam e conforme a cena, ninguém as limpava.

No ar quente, abafado, um vapor de odor pitoresco, uma mistura de cheiros, que vêm daqui e dali, de toda parte. Ferro, gordura, lixo, poeira.

Um estrondo tira a atenção dos cheiros. Era ele, que tinha largado a serra na mesa, jogado, assustado com o que vira: um bigato… daqueles bem rechonchudinhos, bege clarinho, com as extremidades mais escuras, marrozinhas. O bichinho ainda se movia. Estava tentando sair do poro do osso, mas não tendo a menor noção de onde estava, caiu na mesa, junto a uma poça de sangue formada pelo que escorria da carne presa ao osso que ele estava.

Ele ficou ali, observando o bigato por um longo tempo. Questionava a razão da existência do animal. Era engraçado vê-lo movimentando-se. Tonto. Com muito esforço ele sai da pocinha e ao mexer-se deixa um rastro de sangue. O bigatinho ia cair da mesa se andasse um pouco mais. Ele então, por isso, o pegou com a mão, impedindo a queda. Olhou-o bem de perto, aproximando aos olhos e, depois de tanto analisá-lo, o comeu.

Os pedaços de corpos da parede assistem a mais um assassinato.

Sinfonia terminada. Notícia: “açougueiro humano faz mais uma vítima”.

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