Os monstros

Desde os tempos mais imemoráveis o temor, o medo, o pavor, o pânico são sentimentos bastante conhecidos dos hominídeos. Pensar em criaturas que os comessem, aniquilassem, destroçassem etc. sempre fez um arrepio percorrer a espinha dos indivíduos.

Ao passo que morria de medo, matava de medo. E matava não só por medo. Por poder, pra se sentir vivo, pra demonstrar força, para aliviar as tensões. E o homem virou lobo do homem.

E a cultura do terror foi crescendo. Circo dos horrores, hospícios flutuantes, guerras, epidemias, mutações, abortos, miséria, canibalismo, capitalismo, parricídios, suicídios, cirurgia plástica, crianças gerando crianças, bomba atômica, inflação, pedofilia, igrejas, crimes passionais, câncer, reality shows, analfabetismo, idiotismo, globalização, egolatria, robotização e isso é só pra começar.

A literatura sempre se interessou pelo horror, o cinema também, todas as cores já pintaram a monstruosidade. Mas de fato monstros nunca jamais foram vistos.

Como poderíamos retratá-los com tantos detalhes, tantas formas e tantos traços comuns? Por que tanta obsessão nesse retrato?

Seres que em sua aparência angariam para si toda a sorte de males que possa existir. Toda a falta de beleza, de charme, de atrativos possíveis. São entes que reuniram para si tudo o que o mundo despreza e, por conseguinte são desprezados também. A mágica disso reside no fato de as pessoas sentirem empatia, verem o mais profundo de si nas ações maléficas, porque o monstro de fato é a própria condição humana, é a expressão de seus horrores internos, não com o que elas se escandalizam, mas os desejos que a mente encerra, as perversões, as bizarrices e os mil nomes que a isso se pode dar. Verem sua própria monstruosidade e seus próprios defeitos.

É junto com o monstro que você executa o que só permite que no seu cérebro desenvolva. Ele dá vazão aos sentimentos. Você faz junto com ele a agressão, a subversão.

É o vilão, o monstro que dá o gosto à história, sem antagonista, não existe uma boa trama. E o mocinho, é apenas, o reforço, corroborando seu superego, sempre regulando suas ações de acordo com a sociedade em que se insere.

Por isso criamos os monstros com tamanha precisão. É nosso espelho interno refletido na arte.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: