Archive for outubro, 2008

Meus oito anos…

Havia cores por toda parte. Em formas ovais maiores e menores, por todos os cantos, espalhadas pela extensão do ambiente.

Os amigos estavam até onde não imaginava que pudessem estar. Rindo, indo e vindo. E os presentes! Ganhara tudo o que queria e ainda mais!

O grande bolo de chocolate da madrinha tinha gosto de sonho e comeria-o pelo resto da vida de tão bom. Mal podia esperar a hora do “parabéns” pra comê-lo e iria guardar um pedaço na geladeira pra Carolina.

Carolina não tinha ido à festa. Era pra ser o aniversário mais legal do mundo se ela estivesse lá. Os oito anos não teriam sido mais felizes. Ligou pra ela algumas vezes antes e durante a comemoração, mas nada de Carol atender.

O Plínio tava chamando insistentemente pra brincar de pega-pega, a mãe queria que tirasse fotos com a avozinha, a Stela não saía do pé e até o Pingo tava latindo querendo chamar a atenção. Mas tudo isso era menos importante. Eu queria mesmo ela. Como não fosse possível minha vontade, corri pro quintal pra brincar com o Plínio.

Muito suado, camisa molhada, ouço mamãe chamando pra “cantar parabéns”, na verdade era pra cantarem pra mim, mas eu entendi o que ela queria dizer. Nada da Cá. Puxa… “Põe chapeuzinho no Pedro!”, uma tia daquelas que só vejo quando é aniversário de alguém, gritou.

Argh, credo, detesto esses chapeuzinhos ridículos, não sei por que minha mãe compra, mas não tem ninguém aqui que eu me importe mesmo -“Me dá o azul, vai!”.

Por um momento olhei pra porta da sala a espera da Cá, suspiro. Nada delaaaaaa! É Pedro, esquece, ela deve ter ido fazer outra coisa mais legal do que vir a uma festinha de aniversário de criança. Deve achar isso idiota.

“Pedrooo, apaga a velinha!”, “Faz um desejo!” Nesse momento, respirei fundo e desejei ver a Carol, mas sabia que era em vão, como não custa nada, soprei.

Terminada a cantoria, rolou um “com quem será, e é claroooo que –é com a Carol, é com a Carol que o Pedrinho vai casar!”, ainda bem que ela não estava lá… foi o único momento que não quis que ela estivesse lá.

Minha mãe vendo minha camiseta (e sentindo o cheirinho azedo), falou para eu me trocar e descer que queria tirar fotos minhas com meus amigos. Subi bem devagar, desanimado, olhei para a gaveta de camisas e vi a pólo vermelha de listras que a Cá tinha dito que era bonita. Foi ela que pus.

Desci pulando os degraus com eu fazia quando era menor. Estava meio surtado. Era falta dela. Imagine a cena, eu descendo a escada pulando como coelhinho, com um chapeuzinho azul com um palhaço mostrando a língua, com o cabelo todo suado (eu deveria ter lavado, mas esqueci e não ia subir de novo) cantando “ado, aado, cada um no seu quadrado” e fazendo dancinhas (é, eu sei que é ridículo, mas e daí?).

Quando ouço uma gargalhada e olho pra frente vejo a Cá, parada na frente da porta, rindo de mim e eu querendo sumir, vermelho, quente. Eu congelei, não sabia o que fazer. “Vem cá pra eu te dar um abraço!”. Ai meu deus! O que vou fazer? E meus pés me levaram até o último degrau contra minha vontade. Falei “oi” com a voz mais apavorada que se ouviu no mundo. Ela sorriu, me puxou pro chão e me abraçou. “Parabéns Pedrinho narizinho!” – ela me chamava assim porque achava meu nariz bonitinho (cada coisa!). Aos poucos tentei voltar ao normal, quer dizer, ao mais próximo do normal, porque perto dela nunca ficava. Chamei minha mãe para pedir pra ela pegar um pedaço de bolo e minha mãe nos vendo, anunciou a família: “Olha quem tá aqui! A namoradinha do Pedro!”. Que ótimo! Não bastasse a dancinha, agora era a vez da minha mãe me matar de vergonha, nunca mais ia olhar pra cara da Cá, era o fim da minha curta vida.

Ela também ficou com vergonha, vi sua bochecha vermelhinha e ela olhar para o chão. Ela ficava ainda mais linda assim (ai, ai não queria mais morrer depois disso!). Mas lembrei que precisava responder algo pra minha mãe e retruquei: “Namorada é coisa de bobos mãe, pára!” Mas no fundo eu queria mesmo que ela fosse minha namorada. E minha mãe, rindo-se disse: “tá bom, não está mais aqui quem falou!” e deu o pedaço de bolo pra Carolzinha.

Carol e eu fomos pra sala pra ela sentar e comer o bolo. Ela tirou da bolsa um embrulho “Esqueci de te entregar meu presente” com papel de presente cheio de coelhinhos (o que me lembrava da escada) e dentro dele tinha um cartão e um dvd com um filme que queria muito ver. Não em contive e sorri. Ela lembrou do filme que até eu mesmo tinha esquecido! No cartão estava escrito: Parabéns Pedrinho Narizinho! Espero que goste do meu presentinho. Gosto muitão de você! Beijos, Carol. Isso sim que era presente! Ela gosta muitão de mim! Ta certo que é como amigo, mas gosta! Ah, melhor aniversário da minha vida este!

“Gostou?” Adorei! Nem lembrava mais dele Cá. Obrigado mesmo! E amei o cartão! (Não preciso dizer que estava roxo de vergonha). Ela elogiou o bolo, também não tinha como não gostar daquela maravilha da tia Ana. “Há! Adorei sua dança do quadrado!” – e riu. Por que será que as pessoas gostam tanto de me envergonhar? Eu apenas olhei pra ela e pro chão. Falei que ia me trancar no armário embaixo da escada de tanta vergonha. “Posso ir junto?” Eu não sabia o que dizer, mas fiz com a cabeça que sim, e fui abrindo a porta. Ainda com vergonha, usei as sábias palavras do papai “as damas primeiro” e a deixei entrar. Era um armário triangular porque acompanhava a subida (ou descida) da escada, era muito alto numa parte e ia diminuindo. Ela lá dentro me puxou e fechei a porta, tinha uma luzinha que mamãe tinha posto lá e eu a acendi pra poder enxergá-la. Mal acendi a luz a vi muito perto de mim, me olhando. Não falamos nada, apenas respirávamos, um pouco mais rápido que o costume, eu diria. Dentro de mim uma coisa estranha, borboletas no estômago, uma quentura, um tremor. Fechei meus olhos, respirei fundo, lembrei do meu pedido quando apaguei as velas. Apaguei a luz do armário. Abracei a Carol e ela não se importou com isso. Passei a mão sobre seus cabelos. Disse o quanto gostava dela e a beijei. Ficamos ali até ouvir o Plínio batendo na porta que nos descobriu porque o vestidinho lilás da Cá ficou meio preso do lado de fora. “Ta namorando, tá namorando!”

Saimos do armário envergonhados. Trocamos alguns olhares até a mãe dela vir buscá-la.

No mês seguinte ela mudou de cidade. Fiquei sem vê-la um tempão. Até que soube pelo Plínio que ela havia voltado há um mês, mais ou menos.

Andando esses dias na rua, vejo Carol passeando por aí com suas filhas, minhas pernas ainda ficam bambas. “Oi Pedrinho Narizinho, quanto tempo!”. Volto a ficar vermelho.

Sie…

Lá estava ela, como todas as noites (madrugadas, melhor dizendo), deitada. Os minutos que antecedem o sono (que era raro) e que por vezes estendiam-se por horas. Mas lá estava ela. As horas avançadas, o cansaço do dia todo, as angústias, as preocupações, o futuro, as muitas coisas que a impediam de “desligar-se” daquele mundo e adormecer, visitando Morfeu (e Orfeu!) e abandonar aquela forma inapta de vida, por outra com cores e nuances mais aprazíveis.

Era assim a maioria das noites. A insônia, a inquietação, o barulho. Nunca estava silente. Nunca calma. Nunca. Mas respirava mais fundo. Sentia o sangue pulsar nas artérias em seu infinito caminho. Ouvia o palpitar que garantia sua (in)existência. Ah! Tanto peso. Tanta profusão de sentimentos. Tanta confusão, indecisão, vontade, desejo. E essa última palavra pausara em sua mente. Como uma fermata posta em pensamento. Ela tomou pra si aquele signo, como quem agarra a vida, como a mão da criança puxando a mãe pra ver uma joaninha.

Era o momento de liberdade. De soltar (ou por as amarras). De deixar toda aquela energia acumulada esvair-se pelos poros, pelo suor, pela respiração…

Respirou fundo mais uma vez. Expirou todos os pensamentos não prazerosos. Respirou outra vez profundamente e ao fazer isso passou as mãos em seus cabelos. Gostou de sentir o toque dos dedos nos cabelos, o arrepio que causava e manteve-se se acarinhando. Uma brisa entrara pela janela do quarto e tocara seu corpo. A espera de uma próxima, tirou o edredom de cima de si e esticou-se, alongando o corpo pra relaxar mais. Dos cabelos as mãos desceram. Seu pescoço tenso era massageado. Mexia a cabeça para os lados para contemplar toda a extensão da nuca e agora já do colo que era tocado. Experimentava toda espécie de contato.

Fosse com pontas de dedo, palmos, costas da mão, de leve, com pressão, enfim, testava-se na lei de ação e reação, descobrindo pedaços de seu corpo.

O calor apoderava-se de seu corpo, apesar da brisa freqüente resfriar o ambiente. Era um calor imanente, de dentro, de fora, um fervilhar de células, um palpitar acelerado. Ardor de desejo.

Imagens vinham a sua mente. Cenas. Gelo. Pr’aquele calor mesmo, só o gelo. Engolia seco. Os lábios gélidos. Muitas mãos, venda, salto alto, corte, sangue, cabelo preso, mordidas, tatuagem, voyeur, Dioniso, luxúria, unha, ego, olhar, sede, grito, costas, vinho, parede, fronha, perfume, vontade, morango, barriga, gotas de suor. Gelo. Suspiro. Morre. Respira fundo. Alívio. Inspira.

Não havia mais barulhos agora. O mundo se configurava estranhamente diferente da sua costumeira forma. Não havia tempo, nem espaço. Era um instante no presente, passado e futuro concomitantemente.

Morfeu a toma pela mão e a leva aos poucos pra sua morada. Outra morte experimentada. Sempre aquela que mata, e a que morre.

Dorme agora, amanhã (hoje) é um longo dia.

nessum dorma

Acordai!

nessum dorma!

E noi dovremo morir!…

Pois que morrer e dormir…

É nada mais que norma…

A cor dai!

a corda…

nessum dorma!

Detesto me sentir um pedaço de carne.

Que é escolhido, medido, pesado, embalado, rotulado e consumido. 

Não sou definitivamente um produto. Não quero propagandas. Não quero ser definida pelo peso, altura, cor do cabelo, olhos, medidas. Não quero uma etiqueta que diga quem ou o que sou. Não quero ser julgada pela embalagem. Não quero ser exposta. Menos ainda ser consumida por quem assim me vê.

consumidor fala: Oi gata! Como vc é?

picanha diz: Sou loira, olhos azuis, 1,67m, 55k”

“alguém fala: Oi gata! Como vc é?

pessoa responde: dois olhos, um nariz, uma boca – o de sempre!!!

alguém sai da sala.”

Há mais que isso. Mas a massificação da sociedade adestra a todos para esse pensamento comum. 90-60-90. É isso! Não mais, nem menos. Fórmula da perfeição. A forma. Se não se enquadrar, enquadre-se. Descolorante, academia, lipo, silicone, lentes. Vamos todos vestir rosa. Rosa? Não, isso está ultrapassado, a moda agora é verde. Você, de verde? Não sabe que usar verde é brega! – Marrom com bolinhas laranjas “é o que há’! Um eterno insatisfazer de idas e voltas de mesmas coisas. Por vezes visto coisas que via nos álbuns de minha avó. Noutras, coisas que minha avó não queria ver de jeito algum.

Preocupam-se com o que é fugidio, etéreo. E deixam de lado o que realmente importa. Quando acaba a beleza, porque convenhamos, ela sempre acaba, o que fica é a essência. As conversas, a companhia, o poder contar com, aquelas coisas que as palavras nunca dão conta de dizer, mas que não conseguimos sobreviver sem. A beleza, de fato, reside nisso. Um conjunto de elementos interligados, que fazem as pessoas serem pessoas efetivamente. Não apenas corpos. Serem únicas, como cada um é. Tendo personalidade, opiniões – por vezes contrárias a nossa – , gostos, manias, particularidades…

A singularidade faz falta. Não somos um bando de “sem rostos” num vasto mundo vagando, como bactérias numa cultura, como algomerados de células! Engraçado que até elas sabem ser diferentes umas das outras. Temos nomes, cabelos, olhos, corpos, pensamentos, crenças, forças, convicções, desejos, amores… uma variedade incomensurável de diferenças. O mundo é senão diferenças (perdoe-me Saussure!). E por que querer que sejamos todos iguais? E por que me querer ver apenas como um objeto? Ver-me em parte e não no todo? Definitivamente é uma sensação degradante pra quem quer que seja, ser pecebido pela metade, por frações, porções, pedaços.

É por isso que vivemos famintos. Comemos o que não sacia. Chantilly all the time. Ver os outros como quem vê carne no açougue, faz com que após a efêmera saciedade, venha o vazio. Não basta isso, não só isso. Somos sim movidos por desejos. O homem de qualquer  emiótica, é um indivíduo com um desejo. e por isso faz história, tem narratividade. Mas há uma profundidade maior neste desejo. Há a busca pela completude, o preencher do imenso vazio (vazio que faz com que, às vezes, percamos o significado da vida). E mesmo a satisfação carnal, ganha novos contornos quando se relaciona-se com seres humanos de verdade – carne, osso, defeitos, gordura localizada, dente torto, cabelo ruim, chatices e por aí vai. A lista é enorme. Mas se olhar bem pro espelho, o que você vê? Apolo? Afrodite? Acredito que não. Sem o “recheio” de que vale essa casca?

Detesto me sentir um pedaço de carne.

nda sai da sala.