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Meus oito anos…

Havia cores por toda parte. Em formas ovais maiores e menores, por todos os cantos, espalhadas pela extensão do ambiente.

Os amigos estavam até onde não imaginava que pudessem estar. Rindo, indo e vindo. E os presentes! Ganhara tudo o que queria e ainda mais!

O grande bolo de chocolate da madrinha tinha gosto de sonho e comeria-o pelo resto da vida de tão bom. Mal podia esperar a hora do “parabéns” pra comê-lo e iria guardar um pedaço na geladeira pra Carolina.

Carolina não tinha ido à festa. Era pra ser o aniversário mais legal do mundo se ela estivesse lá. Os oito anos não teriam sido mais felizes. Ligou pra ela algumas vezes antes e durante a comemoração, mas nada de Carol atender.

O Plínio tava chamando insistentemente pra brincar de pega-pega, a mãe queria que tirasse fotos com a avozinha, a Stela não saía do pé e até o Pingo tava latindo querendo chamar a atenção. Mas tudo isso era menos importante. Eu queria mesmo ela. Como não fosse possível minha vontade, corri pro quintal pra brincar com o Plínio.

Muito suado, camisa molhada, ouço mamãe chamando pra “cantar parabéns”, na verdade era pra cantarem pra mim, mas eu entendi o que ela queria dizer. Nada da Cá. Puxa… “Põe chapeuzinho no Pedro!”, uma tia daquelas que só vejo quando é aniversário de alguém, gritou.

Argh, credo, detesto esses chapeuzinhos ridículos, não sei por que minha mãe compra, mas não tem ninguém aqui que eu me importe mesmo -“Me dá o azul, vai!”.

Por um momento olhei pra porta da sala a espera da Cá, suspiro. Nada delaaaaaa! É Pedro, esquece, ela deve ter ido fazer outra coisa mais legal do que vir a uma festinha de aniversário de criança. Deve achar isso idiota.

“Pedrooo, apaga a velinha!”, “Faz um desejo!” Nesse momento, respirei fundo e desejei ver a Carol, mas sabia que era em vão, como não custa nada, soprei.

Terminada a cantoria, rolou um “com quem será, e é claroooo que –é com a Carol, é com a Carol que o Pedrinho vai casar!”, ainda bem que ela não estava lá… foi o único momento que não quis que ela estivesse lá.

Minha mãe vendo minha camiseta (e sentindo o cheirinho azedo), falou para eu me trocar e descer que queria tirar fotos minhas com meus amigos. Subi bem devagar, desanimado, olhei para a gaveta de camisas e vi a pólo vermelha de listras que a Cá tinha dito que era bonita. Foi ela que pus.

Desci pulando os degraus com eu fazia quando era menor. Estava meio surtado. Era falta dela. Imagine a cena, eu descendo a escada pulando como coelhinho, com um chapeuzinho azul com um palhaço mostrando a língua, com o cabelo todo suado (eu deveria ter lavado, mas esqueci e não ia subir de novo) cantando “ado, aado, cada um no seu quadrado” e fazendo dancinhas (é, eu sei que é ridículo, mas e daí?).

Quando ouço uma gargalhada e olho pra frente vejo a Cá, parada na frente da porta, rindo de mim e eu querendo sumir, vermelho, quente. Eu congelei, não sabia o que fazer. “Vem cá pra eu te dar um abraço!”. Ai meu deus! O que vou fazer? E meus pés me levaram até o último degrau contra minha vontade. Falei “oi” com a voz mais apavorada que se ouviu no mundo. Ela sorriu, me puxou pro chão e me abraçou. “Parabéns Pedrinho narizinho!” – ela me chamava assim porque achava meu nariz bonitinho (cada coisa!). Aos poucos tentei voltar ao normal, quer dizer, ao mais próximo do normal, porque perto dela nunca ficava. Chamei minha mãe para pedir pra ela pegar um pedaço de bolo e minha mãe nos vendo, anunciou a família: “Olha quem tá aqui! A namoradinha do Pedro!”. Que ótimo! Não bastasse a dancinha, agora era a vez da minha mãe me matar de vergonha, nunca mais ia olhar pra cara da Cá, era o fim da minha curta vida.

Ela também ficou com vergonha, vi sua bochecha vermelhinha e ela olhar para o chão. Ela ficava ainda mais linda assim (ai, ai não queria mais morrer depois disso!). Mas lembrei que precisava responder algo pra minha mãe e retruquei: “Namorada é coisa de bobos mãe, pára!” Mas no fundo eu queria mesmo que ela fosse minha namorada. E minha mãe, rindo-se disse: “tá bom, não está mais aqui quem falou!” e deu o pedaço de bolo pra Carolzinha.

Carol e eu fomos pra sala pra ela sentar e comer o bolo. Ela tirou da bolsa um embrulho “Esqueci de te entregar meu presente” com papel de presente cheio de coelhinhos (o que me lembrava da escada) e dentro dele tinha um cartão e um dvd com um filme que queria muito ver. Não em contive e sorri. Ela lembrou do filme que até eu mesmo tinha esquecido! No cartão estava escrito: Parabéns Pedrinho Narizinho! Espero que goste do meu presentinho. Gosto muitão de você! Beijos, Carol. Isso sim que era presente! Ela gosta muitão de mim! Ta certo que é como amigo, mas gosta! Ah, melhor aniversário da minha vida este!

“Gostou?” Adorei! Nem lembrava mais dele Cá. Obrigado mesmo! E amei o cartão! (Não preciso dizer que estava roxo de vergonha). Ela elogiou o bolo, também não tinha como não gostar daquela maravilha da tia Ana. “Há! Adorei sua dança do quadrado!” – e riu. Por que será que as pessoas gostam tanto de me envergonhar? Eu apenas olhei pra ela e pro chão. Falei que ia me trancar no armário embaixo da escada de tanta vergonha. “Posso ir junto?” Eu não sabia o que dizer, mas fiz com a cabeça que sim, e fui abrindo a porta. Ainda com vergonha, usei as sábias palavras do papai “as damas primeiro” e a deixei entrar. Era um armário triangular porque acompanhava a subida (ou descida) da escada, era muito alto numa parte e ia diminuindo. Ela lá dentro me puxou e fechei a porta, tinha uma luzinha que mamãe tinha posto lá e eu a acendi pra poder enxergá-la. Mal acendi a luz a vi muito perto de mim, me olhando. Não falamos nada, apenas respirávamos, um pouco mais rápido que o costume, eu diria. Dentro de mim uma coisa estranha, borboletas no estômago, uma quentura, um tremor. Fechei meus olhos, respirei fundo, lembrei do meu pedido quando apaguei as velas. Apaguei a luz do armário. Abracei a Carol e ela não se importou com isso. Passei a mão sobre seus cabelos. Disse o quanto gostava dela e a beijei. Ficamos ali até ouvir o Plínio batendo na porta que nos descobriu porque o vestidinho lilás da Cá ficou meio preso do lado de fora. “Ta namorando, tá namorando!”

Saimos do armário envergonhados. Trocamos alguns olhares até a mãe dela vir buscá-la.

No mês seguinte ela mudou de cidade. Fiquei sem vê-la um tempão. Até que soube pelo Plínio que ela havia voltado há um mês, mais ou menos.

Andando esses dias na rua, vejo Carol passeando por aí com suas filhas, minhas pernas ainda ficam bambas. “Oi Pedrinho Narizinho, quanto tempo!”. Volto a ficar vermelho.

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Sie…

Lá estava ela, como todas as noites (madrugadas, melhor dizendo), deitada. Os minutos que antecedem o sono (que era raro) e que por vezes estendiam-se por horas. Mas lá estava ela. As horas avançadas, o cansaço do dia todo, as angústias, as preocupações, o futuro, as muitas coisas que a impediam de “desligar-se” daquele mundo e adormecer, visitando Morfeu (e Orfeu!) e abandonar aquela forma inapta de vida, por outra com cores e nuances mais aprazíveis.

Era assim a maioria das noites. A insônia, a inquietação, o barulho. Nunca estava silente. Nunca calma. Nunca. Mas respirava mais fundo. Sentia o sangue pulsar nas artérias em seu infinito caminho. Ouvia o palpitar que garantia sua (in)existência. Ah! Tanto peso. Tanta profusão de sentimentos. Tanta confusão, indecisão, vontade, desejo. E essa última palavra pausara em sua mente. Como uma fermata posta em pensamento. Ela tomou pra si aquele signo, como quem agarra a vida, como a mão da criança puxando a mãe pra ver uma joaninha.

Era o momento de liberdade. De soltar (ou por as amarras). De deixar toda aquela energia acumulada esvair-se pelos poros, pelo suor, pela respiração…

Respirou fundo mais uma vez. Expirou todos os pensamentos não prazerosos. Respirou outra vez profundamente e ao fazer isso passou as mãos em seus cabelos. Gostou de sentir o toque dos dedos nos cabelos, o arrepio que causava e manteve-se se acarinhando. Uma brisa entrara pela janela do quarto e tocara seu corpo. A espera de uma próxima, tirou o edredom de cima de si e esticou-se, alongando o corpo pra relaxar mais. Dos cabelos as mãos desceram. Seu pescoço tenso era massageado. Mexia a cabeça para os lados para contemplar toda a extensão da nuca e agora já do colo que era tocado. Experimentava toda espécie de contato.

Fosse com pontas de dedo, palmos, costas da mão, de leve, com pressão, enfim, testava-se na lei de ação e reação, descobrindo pedaços de seu corpo.

O calor apoderava-se de seu corpo, apesar da brisa freqüente resfriar o ambiente. Era um calor imanente, de dentro, de fora, um fervilhar de células, um palpitar acelerado. Ardor de desejo.

Imagens vinham a sua mente. Cenas. Gelo. Pr’aquele calor mesmo, só o gelo. Engolia seco. Os lábios gélidos. Muitas mãos, venda, salto alto, corte, sangue, cabelo preso, mordidas, tatuagem, voyeur, Dioniso, luxúria, unha, ego, olhar, sede, grito, costas, vinho, parede, fronha, perfume, vontade, morango, barriga, gotas de suor. Gelo. Suspiro. Morre. Respira fundo. Alívio. Inspira.

Não havia mais barulhos agora. O mundo se configurava estranhamente diferente da sua costumeira forma. Não havia tempo, nem espaço. Era um instante no presente, passado e futuro concomitantemente.

Morfeu a toma pela mão e a leva aos poucos pra sua morada. Outra morte experimentada. Sempre aquela que mata, e a que morre.

Dorme agora, amanhã (hoje) é um longo dia.

O açougueiro

Lá estava ele. Não era muito alto. Estava uns bons quilos acima do peso e era calvo, daquele tipo de calvície que parece tonsura.

Estava atrás de uma mesa, de madeira meio escura, não tratada, uma mesa rústica dessas que vemos tanto por aí.

Calçava botinas. Vestia um jeans sujo e velho e uma camisa que outrora fora branca, agora já bem amarelada pela falta de cuidados  e estava com os dois botões próximos a gola abertos.

Ouvia uma música no rádio. Uma sinfonia, talvez Bach, talvez Mendelssohn, talvez…. Era melodiosa e forte. Tocada num volume mais alto do que o de costume.

Fazia um calor infernal e o ventilador engordurado não dava conta nem de refrescar o primeiro metro a sua frente. Estava quebrado há tempos, não funcionava numa velocidade razoável e fazia um barulho estridente e irritante a cada giro, mas que não incomodava muito naquele momento por causa da música.

O suor escorria de seu rosto, manchava a camisa, umedecia a calça. O calor e o esforço pelo uso da serra com vigor, com gosto eram a causa de tanto suor… Apesar disso, dava pra ver em seus olhos a satisfação com a qual realizava aqueles movimentos de vai-e-vem.

Terminando de serrar um pedaço da carne, pendurou-a num gancho na parede. Eram vários ganchos, tamanhos variados, um para cada peça serrada.

As paredes dos ganchos eram bastantes sujas, o sangue que escorrido das peças as tingiam e conforme a cena, ninguém as limpava.

No ar quente, abafado, um vapor de odor pitoresco, uma mistura de cheiros, que vêm daqui e dali, de toda parte. Ferro, gordura, lixo, poeira.

Um estrondo tira a atenção dos cheiros. Era ele, que tinha largado a serra na mesa, jogado, assustado com o que vira: um bigato… daqueles bem rechonchudinhos, bege clarinho, com as extremidades mais escuras, marrozinhas. O bichinho ainda se movia. Estava tentando sair do poro do osso, mas não tendo a menor noção de onde estava, caiu na mesa, junto a uma poça de sangue formada pelo que escorria da carne presa ao osso que ele estava.

Ele ficou ali, observando o bigato por um longo tempo. Questionava a razão da existência do animal. Era engraçado vê-lo movimentando-se. Tonto. Com muito esforço ele sai da pocinha e ao mexer-se deixa um rastro de sangue. O bigatinho ia cair da mesa se andasse um pouco mais. Ele então, por isso, o pegou com a mão, impedindo a queda. Olhou-o bem de perto, aproximando aos olhos e, depois de tanto analisá-lo, o comeu.

Os pedaços de corpos da parede assistem a mais um assassinato.

Sinfonia terminada. Notícia: “açougueiro humano faz mais uma vítima”.

fragmentos

É engraçado estar sem chão. Você flutua… cai. Os pedaços dele por todas as partes, eles caindo menos rápidos que eu mesma. Sem onde me prender, sem ter como parar a queda aceito a condição. Resigno. Por enquanto. Só enquanto não sei o que fazer. Tenho medo de saber o que fazer. Melhor a dúvida. Enquanto caio vejo pedaços da minha vida. Sabe aquela coisa de pessoas que morrem e dizem que viram a vida como um filme? Quase isso. Vejo trechos específicos, com pessoas especificas. Dores. Sorrisos. Dias e mais dias. Momentos que marcaram. Momentos que não queria lembrar.

Meus pés estão apoiados no ar, que diminui a velocidade da queda. É uma sensação interessante. Por horas queria chegar ao final disso tudo, por horas não, medo do que vou encontrar. Sigo abismo abaixo sentindo todos os sentimentos possíveis. Vivendo de maneira única. Aprendo a transpor limites. Conheço novas fronteiras. Sempre cabe mais, sempre surge mais. É como se tomasse uma droga nova. A química do meu corpo reagindo a outra e me fazendo sentir-me, porque quando tudo está como deve, não nos sentimos de verdade.

Não como mais. É um equilíbrio entre o fora e dentro. Assim a sensação de vazio se completa.  Não há necessidade neste ponto disso. Conforme caio percebo que partes minhas se destacaram de mim. Perdi meu orgulho. Perdi meu amor-próprio. Perdi meu futuro. Perdi uma boa parte de mim. E não sei se me regenero, assim como os rabos de lagartixa e os fígados. Já não via muita graça no meu mundo com chão. Ao menos, agora nesta queda infinita, tenho bem menos a perder.

Perdi-me de mim mesma. Sou um átomo tão oco. No entanto tudo é intenso. Aprendi a chorar novamente. A respirar de outra forma. Aprendi que dói viver, como as crianças que nascem sabem bem. Sinto frio. Estou congelando. Eu que sempre fui tão quente. Mas tudo é ermo e gelado. E não tem mais ninguém aqui. Caindo, caindo. Cercada de pedras, de pedaços de chão. De medo. Estou petrificada de tanto medo. Apavorada. Ainda que já esteja despencando há tempos. Meus olhos ardem. Pesam. São as únicas coisas que pesam. O resto é bem leve. O restante do corpo perdeu seu conteúdo. Perdeu o que o fazia pesar. Estão sempre com sono. Mas o sono só está nos olhos. A alma não se cansa de tentar. Está cansada, é fato. Liquefeita. Rala. Esvaindo-se na minha mão. E que corpo é esse agora? Algo bestial. Partes trocadas e montadas a bel prazer, do caos. O ato ou efeito que descompôs tão rapidamente, me fez tentar recuperar o que sobrou. E ficou assim. A la frankenstein mode. Não posso escolher para onde ir. Simplesmente para baixo. E além. I n f i n i t a m e n t e.

É este eclipse de mim mesma. Náuseas. Vomitaria se tivesse como. E não desejo dó por isso, nem por nada. É escolha. Querer: “Eu quero!”. Embora sem minhas rédeas. Embora sem direção. Desejo. E pra descrever tudo, precisaria de todas as folhas do mundo. De palavras de todas as línguas. E seria lacônica.

E existe tanto amor. Incrivelmente forte e grande e poderoso. Muito maior do que sabia. Ganhando contornos mais amplos. Porque estou partida é que existem mais lugares para armazenar esse amor. Talvez entenda melhor agora. Como estar em carne-viva. Estranhamente masoquista. Permitindo-me ir mais longe. Sublimar-me. Como um ato de purificação. A espera. Preparando-me para muito. Jejuando. E não há vozes. Não há olhares. Nem aquele. Especial.

Por isso velo. No eterno cair, velo o morto. Beijo suas mão frias. Sempre frias. Agora duplamente frias. Aqueles que querem dormir, marejam. Caem no nada. Não há mais nada. Não aqui. Mas um grande tumulto em volta e lá fora. Outra. O grande espetáculo da vida. E nada é inteligível ou tangível. Apenas é.

Como disse uma Pessoa: não sou nada. Como eu escrevia antigamente: je suis rien.

Isso é morar (ou cair) em nihiland.

Ponto de partida

Fazia dias que não saía de casa. Dias que não comia direito. Aquele cheiro ainda estava nas roupas, nas paredes, no chão, nos móveis, no ar que respirava, na comida, impregnado. Cheiro de putrefação, de carne, de morte, de fantasmas. Não parava de pensar, de lembrar, de chorar. De chorar por dentro, pra si, as lágrimas não tinham força para sair fazia já algum tempo.

Tomou por fim o vinho. E mais três remédios. Nada remediava a dor, a insônia, a lacuna. Não era mais humano, era só buraco. Oco. Andava já curvado, pois o peso dos ossos assim o conduzia. Tinha o mundo nas costas e não sabia para onde ir. A música entrava pelos ouvidos e percorria suas veias, o vinho – o mesmo que tomara em outras datas – era insoso agora, as cores fugidias e um tom de cinza brindava o ambiente de modo peculiarmente bonito contrastando com o avermelhado do carpete.

A linda criatura olha para mim, me sorri, me chama. Deitado no chão, sinto seu toque em meus cabelos, consigo fitá-la, entrelaço meus dedos nos seus. Evanescente.

Não sei mais se é noite ou dia. Não quero saber. Não quero ser. Não quero estar. Não quero morrer. Vejo coisas. Me lavo. Mas a água torna sangue, uma espécie de Caná revisitada. E o cheiro, o perfume putrefato que não sai? Lavei todas as minhas roupas, usei o que poderia haver de mais forte, mas nada arranca esse olor de ferro, que parece estar dentro de mim, como se eu emanasse decomposição. Vomito.

O espelho não me mostra mais. Não sei o que é aquilo que aparece. Uma estranha figura descomposta, feia, informe. Volto a não mais sentir me. Meu corpo todo formiga, olho os arredores. Tudo imutável, tudo irreconhecível. A decoração da dor agulha minha carne. Vejo penduradas como quadros pessoas que não conheço. A tevê liga. Uma mulher fala coisas que não entendo, mas a música continua tocando, a mesma música. É como uma língua qualquer primitiva. Ou talvez não esteja mais entendendo nada. Me esforço, aumento o volume, mas a música não me deixa ouvir com atenção. De onde ela vem? Pra quê tentar entender também? Não quero saber de nada, se não me ouvem, pra que ouví-los?

Vencido pela música. Danço. Ela me leva, ela dança comigo e danço com eles. Todos dançam aqui. Mas estou cansado, quero dormir, quero esquecer.

Goladas de vinho.

Dorme.

No sonho os deuses oníricos o visitam. Espalham criaturas eólicas fragmentadas, espécie de anjos aos pedaços, pernas e tronco, cabeça e braços, unhas e cabelos montados caoticamente. E muitas bocas e vozes. Mas até dormindo o cheiro e a canção não apartavam. Eram inseparáveis dele. Inerentes?

Havia neve. Nunca estivera em lugar algum com neve, mas sentia sua textura, sua frieza, sua qualidade de floco. E caminhava. Sem rumo, respiração ofegante, parecia que fazia muito tempo que estava vagando, estava fraco, as pernas pesavam. Começava a congelar-se. E isso dava uma sensação boa de leveza, de sair de si, de levitar… os membros inferiores ficavam insensíveis, seu sangue parecia demorar mais para transitar entre as veias. Ao longe avistou alguém. Uma mulher. Ruiva, de um carmim que chamava a si toda a atenção naquele infindável mundo branco. Ela era bastante pálida, e agora estava a uma distância em que era melhor visualizada. Ela vestia uma capa negra e roupas escuras, e não parecia se importar com o frio aterrorizante. Estonteado com sua beleza nem viu que outrem correndo chegava e portava uma arma – um punhal prateado – com o qual, ao abraçar a mulher ruiva e beijá-la, a apunhalou. A neve tingira-se. A seiva vital ia esvaindo e ela mudara sua feição. Mais punhaladas. Ele tentou impedir, mas não conseguia se mexer, nem falar. A ruiva o olhava fixamente. Mas o homem que a sacrificava, nem percebia sua presença. O rosto pálido tornou-se impossivelmente mais branco, os cabelos tingiram-se e ficaram ainda mais vermelhos, os olhos também.

Não entendendo o que acontecia a sua frente e nem consigo mesmo, olhou para o horizonte procurando uma saída, alguém. O homem do punhal desaparecera. Não havia mais nada ali. Ao lançar os olhos novamente para a mulher, notou um papel em sua mão, e com um esforço homérico, deu alguns passos para pegá-lo. Deveria ser algo imprescindível, pois ela ainda o segurava com bastante força. Ele retirou cuidadosamente e leu, o que talvez não quisesse ter lido: -É culpa sua!

Nisto uma profusão de sentimentos tomou conta de si. Ficou torpe, tamanha a força daquelas palavras. Enxergava com dificuldade. Tremia mais que antes. Fraquejou. Perdeu os sentidos. Caiu.

O pesadelo da vida imaginária o trouxe de volta ao pesadelo da vida real.

Lá dentro a escuridão. Lá dentro de si, dentro da casa, dentro de seu mundo. Trevas. Não sentia nada. Apenas fome. Dirigiu-se a geladeira, procurou algo. Mas tanto tempo fez com que os alimentos estragassem. Fechou a porta do refrigerador. Pegou um pedaço qualquer de carne. Cortou em pedaços menores. Salgou. Pôs na panela de qualquer jeito, não sabia fazer comida mesmo.

Comi os pedaços com gosto. Salivei. Não deixei muito tempo no fogo para comer filés sangrentos. O sabor era diferente mesmo como havia lido. Mas divinamente saboroso. Acompanhara sua refeição com outra taça de vinho. O paladar voltou, ainda que fraco.

Mais tarde, vômito.

Tinha desligado todos os aparelhos telefônicos. Puxado os fios do computador. Jogado na parede rádios. Restava apenas a televisão que ligava e desligava como bem entendia.

uma outra, como tantas

Chegara mais cedo aquela noite. Despia-se. Brincos, pulseiras, colares, saltos, fivela, meia 7/8, liga – a fantasia de todo dia indo ao chão. Era um pouco dela que caía ali.

Não sabia mais o que era . Se toda a roupa, os perfumes, a pompa, brilhos e paetês, ou se era aquilo que agora via no espelho: uma mulher, cansada, sem muitos sonhos, sem o cheiro do perfume, sem adereço algum, uma outra como tantas.

No banheiro, lavava-se, esfregava tentando tirar os odores que tomaram o lugar das fragrâncias doces: o suor impregnado, as palavras sujas que ouvira, os toques, as mãos que ainda lhe violentavam, os membros que lhe haviam tocado, esfregava, esfregava, esfregava. A pele tão branca, avermelhava-se pela força do movimento que era empregado. Queria limpar-se de toda aquela podridão, da sua vida, da outra que em si habitava. A água lavava parte das dores, desciam pelas gotas, lágrimas, despida totalmente do passado remoto, estava agora mais leve, menos tesa. Poderia dormir, e, quem sabe sonhar com o dia em que tudo iria acabar.

Não, não sonhara, passou horas pensando nas cenas. Não só nas que havia vivenciado há pouco, mas nas que queria atuar. Queria ser atriz. Ser boa de verdade, não mais o fingimento de gemidos, as caras e bocas que fazia, mas queria ser outras, outros, mudar de mundo… ser a Beatriz! Depois de lutar com tantos pensamentos, adormecera.

E como sempre, o relógio toca. Novamente, levanta-se e faz café. Mais uma vez, outro dia começa. Já são três horas da tarde. E nem é mais tão dia assim. A rotina inicia e vai engrenando lentamente até o “rush” em poucas horas.

Passar na quitanda, comprar mistura, pão e desinfetante. Voltar pra casa, limpar o banheiro, pegar as roupas do varal, ler os classificados, comer… quem sabe sobra tempo para a novela. Na mente cantarolava o de costume “Olha, será que ela é moça, será que ela é…” porém o tic-tac quebrava melodias e lhe mostrava que o tempo urge.

Quatro voltas completas do relógio, o banho já tomado. O creme hidrante ia subindo dos pés, para as pernas, virilha, barriga, nádegas, costas, seios, braços, pescoço. Pro rosto, outro creme. Calcinha vinho rendada, corset combinando, cinta-liga, meia 7/8 arrastão, também no mesmo tom. Olha para o espelho, sobe no salto, sente-se poderosa, não é linda, mas dentro de tal embrulho, chama e muito a atenção. Um gole de vinho. Sobre o hidratante facial, a base. Sobre ela, pó, corretivo, sombra, lápis, rímel, blush, batom, vinho, mais batom. Máscara feita, olha-se novamente no espelho e não se vê mais, no reflexo uma ninfa, uma deusa-guerreira, um anjo negro que estarreceria muitos naquela noite. Metamorfose.

Por fim, a veste cabal. Um delgado vestido de cetim preto, decotado, pouco acima dos joelhos, esvoaçante, provocante. Perfuma-se. Atrairá para si, como as flores, os mais variados tipos de insetos. Essa era a intenção. Último gole de vinho.

Toda mimesis passou do tempo. Corre agora. Táxi! Ruas, esquinas, avenidas, trânsito, buzina, sinais, pessoas, respiração mais forte, batimentos acelerados, velocidade, luzes, música, lugares familiares. Pára. Respira fundo, olha para a casa que já começa a encher, e entra pelos fundos sorrateiramente. Pausa.

Uma vez lá dentro, ouve reclamações sobre o atraso e desculpa-se falando do trânsito.

Nos camarins mais pó. Senta-se. Bebe. Conversa com outras. Quando a sós, checa a bolsa: batom, rímel, camisinhas, dinheiro, ainda que pouco.

É chegada sua hora. Vira uma dose de uísque barato para soltar-se mais. Mexe nos cabelos, ajeita o vestido, faz pose. – É você!- uma voz sinaliza sua entrada.

As luzes poucas, coloridas, esparsas. Uma névoa recobria o lugar, gelo seco demais, mas não era hora para reclamar. Música libidinosa entrando pelo corpo, fervilhando cada célula. Entra em cena a mulher mais poderosa do mundo. Começa a dança da sílfide ardente e todos os olhares voltam-se a ela. Esse saber a faz sentir-se bem, cobiçada e excita-se. O mover do corpo melhora vertiginosamente diante da descarga estimulante que o sangue recebera. A platéia pulsa a cada giro, a cada simples passo da dança carnal que ali se faz. É quase um ensaio de coito. Uma performance sexual estilizada. Pasmos estão os que a vêem. Loucos de desejo pela musa da noite. Sabem todos que quanto maior o lance, mais chances terão de saciar a vontade do fruto que agora saia de cena.

Alea jacta est. Combinados todos feitos. A peça mulher é vendida ao seu consumidor. Nesta hora é que a circunstância diminui o brilho e glamour de instantes atrás, mas nem por isso, desiste da missão. O prazer e o “show” devem continuar.

Como num ritual sagrado, a sacerdotisa da libido sentiendi faz a iniciação de seu neófito retirando cada peça de sua roupa deliciosamente, mostrando toda a volúpia que a faz ser considerada a melhor. O iniciado assiste tudo com muita atenção e ao pedido da dama, despe-se. O ambiente é de penumbra, uma música ao fundo dá continuidade à canção que ritmou a dançarina, prolongando no antro o espetáculo de outrora.

Ele levanta-se, não se agüentando mais, indo ao encontro do corpo que o instiga. E com um canivete que trouxera, corta as vestes íntimas restantes dela. Ela se assusta. Ele a acaricia com a navalha e a acalma. Brincadeira perigosa e sensual. Sobe e desce pelo corpo, vão baixando e recostam na cama. Ele deita de bruços.

Sua “compra” pergunta-lhe sobre fantasias. Ele titubeia ao responder, ela entende – os anos de experiência que a ensinaram muito, lhe informam como proceder. Ela pega o preservativo na bolsa. Procura um meio que lhe ajude a atender ao pedido. Encontra. Derrama um gel sobre si e com o corpo esfrega-o contra o dorso do parceiro. O prazer intensifica-se. Ele agora com determinação pede. A protuberância anatômica adentra a cavidade. A dor e o prazer se fazem sonoros. Respiração ofegante. Taquicardia. O vai e vem acentua-se. Gemidos. A cama suja-se com o líquido esbranquiçado que jorra dele. Ela ainda em cima, no dorso, movimentando-se. Mais um pouco. E de seu membro vaza o gozo leitoso. Resfôlego.

Um pouco menos torpe agora, saciado, ele, cônscio do que fizera, empurra o ser que tanto lhe deleitara e começa a proferir vocábulos de baixo calão vorazmente. Seu superego voltara com todo vigor. O erro, pensou, deveria ser silenciado. Entre golpes e agressões de todas as formas, a cabeça dela choca-se contra a parede. Sangue. O canivete termina o começado. Como um animal que destroça uma presa, estocava a lâmina no que já era cadáver. Sentia-se resguardado agora, ainda que a catexia fosse inerente.

Uma boa quantidade de dinheiro esconde qualquer “acidente”, não aconteceu diferente neste caso.

Agora ela não precisaria mais sonhar pensando em como tudo iria acabar. Naquela noite não chegara mais cedo. Naquela noite era uma, como tantos.

A SALA

Na sala que nada tinha de extraordinária ou excêntrica, o cigarro ainda queimava. Ele recostado a poltrona de tantos anos, observa a cena respirando com sofreguidão. Nada tiraria a atenção dele naquele momento. Ela ali, há poucos centímetros de distância dele, sobre o tapete branco de chamois, alvíssimo, mas que aos poucos tingia-se pelo puro carmim que dela escoara… ela ainda ria, sorria, olhava para ele com um ar de gratidão que não era concebível – como ela poderia estar grata depois de tudo que acontecera? – a poltrona tinha respingos do rubro sangue, a camisa dele também, não se sabe de quem era esse sangue… a essa hora os líquidos vitais mesclavam-se num só fio de vida.

Era o que ambos tinham, um fio tênue de vida. Ainda deu para ouvir as últimas palavras que ele proferiu: agora sim estou feliz!

Não sei se ela conseguiu ouvir, uma vez que suas pálpebras já estavam cerradas.

O tapete todo mudara de cor. Deslumbrantemente o vermelho vivo destacava naquela saleta completamente clara.

Ele tentou levantar-se, mas o esforço causou o rompimento de mais uma artéria que os fios de arame farpado rasgaram. Fluía dele com mais rapidez o que o matinha vivo. O coração palpitava lentamente. Os olhos não a viam mais. Um último suspiro.

Um cheiro férrico tomava conta do lugar e era absorvido pelas paredes. Ninguém sabia o que havia acontecido ali.

O sangue vertido se alastrava preenchendo os espaços da minúscula sala. Subia pelas paredes e dava a cor para cada uma delas.

O amor, a ira, a vingança, a paz, a morte exalada de ambos era absorvida pelas paredes.

Ninguém mais sabia o que acontecera ali.

Mortos os dois definitivamente.

Um tremor abalou o lustre. Paredes todas no chão. A sala oculta tudo o que aconteceu ali.