Archive for nihilities

Detesto me sentir um pedaço de carne.

Que é escolhido, medido, pesado, embalado, rotulado e consumido. 

Não sou definitivamente um produto. Não quero propagandas. Não quero ser definida pelo peso, altura, cor do cabelo, olhos, medidas. Não quero uma etiqueta que diga quem ou o que sou. Não quero ser julgada pela embalagem. Não quero ser exposta. Menos ainda ser consumida por quem assim me vê.

consumidor fala: Oi gata! Como vc é?

picanha diz: Sou loira, olhos azuis, 1,67m, 55k”

“alguém fala: Oi gata! Como vc é?

pessoa responde: dois olhos, um nariz, uma boca – o de sempre!!!

alguém sai da sala.”

Há mais que isso. Mas a massificação da sociedade adestra a todos para esse pensamento comum. 90-60-90. É isso! Não mais, nem menos. Fórmula da perfeição. A forma. Se não se enquadrar, enquadre-se. Descolorante, academia, lipo, silicone, lentes. Vamos todos vestir rosa. Rosa? Não, isso está ultrapassado, a moda agora é verde. Você, de verde? Não sabe que usar verde é brega! – Marrom com bolinhas laranjas “é o que há’! Um eterno insatisfazer de idas e voltas de mesmas coisas. Por vezes visto coisas que via nos álbuns de minha avó. Noutras, coisas que minha avó não queria ver de jeito algum.

Preocupam-se com o que é fugidio, etéreo. E deixam de lado o que realmente importa. Quando acaba a beleza, porque convenhamos, ela sempre acaba, o que fica é a essência. As conversas, a companhia, o poder contar com, aquelas coisas que as palavras nunca dão conta de dizer, mas que não conseguimos sobreviver sem. A beleza, de fato, reside nisso. Um conjunto de elementos interligados, que fazem as pessoas serem pessoas efetivamente. Não apenas corpos. Serem únicas, como cada um é. Tendo personalidade, opiniões – por vezes contrárias a nossa – , gostos, manias, particularidades…

A singularidade faz falta. Não somos um bando de “sem rostos” num vasto mundo vagando, como bactérias numa cultura, como algomerados de células! Engraçado que até elas sabem ser diferentes umas das outras. Temos nomes, cabelos, olhos, corpos, pensamentos, crenças, forças, convicções, desejos, amores… uma variedade incomensurável de diferenças. O mundo é senão diferenças (perdoe-me Saussure!). E por que querer que sejamos todos iguais? E por que me querer ver apenas como um objeto? Ver-me em parte e não no todo? Definitivamente é uma sensação degradante pra quem quer que seja, ser pecebido pela metade, por frações, porções, pedaços.

É por isso que vivemos famintos. Comemos o que não sacia. Chantilly all the time. Ver os outros como quem vê carne no açougue, faz com que após a efêmera saciedade, venha o vazio. Não basta isso, não só isso. Somos sim movidos por desejos. O homem de qualquer  emiótica, é um indivíduo com um desejo. e por isso faz história, tem narratividade. Mas há uma profundidade maior neste desejo. Há a busca pela completude, o preencher do imenso vazio (vazio que faz com que, às vezes, percamos o significado da vida). E mesmo a satisfação carnal, ganha novos contornos quando se relaciona-se com seres humanos de verdade – carne, osso, defeitos, gordura localizada, dente torto, cabelo ruim, chatices e por aí vai. A lista é enorme. Mas se olhar bem pro espelho, o que você vê? Apolo? Afrodite? Acredito que não. Sem o “recheio” de que vale essa casca?

Detesto me sentir um pedaço de carne.

nda sai da sala.

Inconsciente coletivo….

O mundo não é cor-de-rosa. As pessoas não são felizes. Não conheço meu vizinho. Dói mais quando respiro. Não acredito que ele fez isso. Quem é aquela ali? Se você acha que é melhor, faça. Eu estou sozinho, ainda que existam muitas pessoas ao meu redor. Queria colo. E o que vou fazer? Ainda bem que está chegando o fim de semana. To gorda. Será que vou? Desculpa! Que dor de barriga! Essa aula não termina nunca. To indo mãe. Claro! Me liga! Quanto tempo! Nossa como você cresceu! Feia! Onde será que vou levar ela? Vou fingir que é engano. Queria mais um pedaço. Que legal! Te odeio! Quero aquele! Que sono, nossa! Arroz e feijão de novo! Não sei qual escolher. Ai não chega nunca! Gostosa, hein! Tiiiiaaa! Por que estou fazendo isso?

Onde quero chegar com tantas frases?Também me fiz a mesma pergunta. Existe por certo um falar coletivo. Idéias, atos, movimentos e afins que herdamos, desde que as necessidades dos homens deixaram de ser só esconder-se do leão que ia atacá-lo ou combinar como seria a caça. As carências humanas em todos os sentidos foram se complexificando e são compartilhadas por todos os Homens.

Homo sum, nihil humani a me alienum puto. (Sou homem, nada do que é humano me é estranho)

Você com certeza já disse ou pensou, senão todas, algumas dessas frases. Estes mesmo pensamentos estão grafados em paredes, pedras, madeira, papiro, papel desde os mais remotos tempos. As angústias pela aparência, os sintomas biológicos, o sentimentos desordenados, as dúvidas, as ansiedades, os vocativos, tudo é da mesma maneira, qualquer que seja a língua usada pra expressar-se. E dessa forma penso que a evolução que tanto nos gabamos na verdade é parcial. O homem não evoluiu. Mata, fere, respira, se alimenta, caminha, excreta, fala, age como sempre fez. Uma inconsciência coletiva, primitiva o homem. O faz retornar as suas raízes mais profundas, onde impera o dionisíaco lado do ser. É fato. Basta ouvirmos Tambores! Sons de percussão e bateria e estamos todos a pulsar numa mesma freqüência. O ritmo das raves simula sons primordiais e dançamos. Dance, monkeys, dance!- já dizia o vídeo do youtube.

E acredito que isso deva fazer muito bem ao macaco evoluído que usa a fantasia de gravata e terno e mira sua vida no tic-tac. Se não fizesse bem, não mais seria assim, e pelo que sabemos, ainda o é. A essência estranha da qual fomos feitos nos irmana nesse mundo-aldeia e nos dá a esquisita impressão de que somos conhecidos. Talvez seja essa a reencarnação. O espírito comum faz parte de todos os corpos e fará parte por todo o tempo que o tempo permitir. E morremos, e viraremos matéria putrefata, e seremos alimento, alimentaremos outros seres, de outros nós mesmos.

É o ciclo-sem-fim.

Os monstros

Desde os tempos mais imemoráveis o temor, o medo, o pavor, o pânico são sentimentos bastante conhecidos dos hominídeos. Pensar em criaturas que os comessem, aniquilassem, destroçassem etc. sempre fez um arrepio percorrer a espinha dos indivíduos.

Ao passo que morria de medo, matava de medo. E matava não só por medo. Por poder, pra se sentir vivo, pra demonstrar força, para aliviar as tensões. E o homem virou lobo do homem.

E a cultura do terror foi crescendo. Circo dos horrores, hospícios flutuantes, guerras, epidemias, mutações, abortos, miséria, canibalismo, capitalismo, parricídios, suicídios, cirurgia plástica, crianças gerando crianças, bomba atômica, inflação, pedofilia, igrejas, crimes passionais, câncer, reality shows, analfabetismo, idiotismo, globalização, egolatria, robotização e isso é só pra começar.

A literatura sempre se interessou pelo horror, o cinema também, todas as cores já pintaram a monstruosidade. Mas de fato monstros nunca jamais foram vistos.

Como poderíamos retratá-los com tantos detalhes, tantas formas e tantos traços comuns? Por que tanta obsessão nesse retrato?

Seres que em sua aparência angariam para si toda a sorte de males que possa existir. Toda a falta de beleza, de charme, de atrativos possíveis. São entes que reuniram para si tudo o que o mundo despreza e, por conseguinte são desprezados também. A mágica disso reside no fato de as pessoas sentirem empatia, verem o mais profundo de si nas ações maléficas, porque o monstro de fato é a própria condição humana, é a expressão de seus horrores internos, não com o que elas se escandalizam, mas os desejos que a mente encerra, as perversões, as bizarrices e os mil nomes que a isso se pode dar. Verem sua própria monstruosidade e seus próprios defeitos.

É junto com o monstro que você executa o que só permite que no seu cérebro desenvolva. Ele dá vazão aos sentimentos. Você faz junto com ele a agressão, a subversão.

É o vilão, o monstro que dá o gosto à história, sem antagonista, não existe uma boa trama. E o mocinho, é apenas, o reforço, corroborando seu superego, sempre regulando suas ações de acordo com a sociedade em que se insere.

Por isso criamos os monstros com tamanha precisão. É nosso espelho interno refletido na arte.

A sociedade do espetáculo

O espetáculo é a maneira pela qual a sociedade, da qual fazemos parte, existe. Ela se apresenta, se manifesta, se expressa, cria, se governa, se organiza e se auto-regula por meio do espetáculo. Ele é, de fato, a sociedade e como ela se comporta. A sociedade do espetáculo modela o modo de pensar, de agir e de se relacionar das pessoas.

E não é uma transformação que ocorre e muda um fato em espetáculo – ele já o é, e configuram-se assim todas as coisas. A economia vira (é) espetáculo, a política outro, a educação, as banalidades do dia-a-dia viram (são) imagens espetaculares.

As roupas servem para produzir o espetáculo, as falas são espetaculares, cada gesto, cada olhar… nascer faz parte desse mundo espetacular. A produção do espetáculo é a máquina do mundo contemporânea. Desta forma, todos passamos a ser produtores e produtos desta mentira sacralizada que toma o lugar da verdade. Um assassinato é espetáculo, a nova roupa do papa também, até uma casa, com desconhecidos dentro, é palco.

Nada escapa a esse mecanismo que foi produzido inicialmente pelo mercado, quando o ser foi trocado pelo ter e como fruto temos um aparecer que é almejado por todos. Esse transformar em mercadoria todas as coisas, fez máquinas tomarem o lugar de homens e os homens comportarem-se como máquinas. Máquinas que querem visibilidade, status, que precisam cuidar da imagem e vende-la o tempo todo para encaixarem-se dentro das “necessidades” criadas por essa mesma sociedade. É uma espécie de “ouroboros”, a serpente que morde o próprio rabo fechando o ciclo de suprir e necessitar interminável – o consumo sem precisar, a necessidade sem consumir.

A sociedade do espetáculo se diverte consigo mesma, uns com os outros, astros de seu próprio “show” de forma alternada. Nem sempre dá pra estar no foco, atraindo atenção, por vezes, se é público e como tal espetáculo também, mas logo voltam as luzes e brilha-se neste palco-planeta, ofuscantes, ofuscados e ofuscadores. Formantes de uma trama onde nem tudo que reluz é ouro. E não podemos esquecer “the show must go on!”.

fim do último ato!

Queria vomitar você de dentro de mim. Calar as vozes das células que clamam seu nome. Extirpar cada parte, cada membro que ainda te quer. Apagar todas as memórias, ainda que pra isso, seja preciso bater com minha cabeça na parede até ver pedaços dela caindo pelo chão. Quero me purificar da tua presença, lavar com soda e água fervente meu corpo para que não sobre mais rastros teus. Vou arrancar meu coração e jogá-lo pela janela. Quero vê-lo espatifado no chão e depois sendo comido pelos cães famintos, saboreado cada pedaço e enfim, uma vez que esteja no intestino destes animais, ele já não mais baterá por ti. Descolarei meus lábios da minha boca. Não voltarão jamais a tocar-te, não permitirei! Fatiarei esses beijos que um dia inebriaram e farei deles lixo. Não são mais que isso mesmo, lixo! Lixo por todas as palavras que disseram e pelas que ainda querem dizer. Enterrarei cada lábio a uma distância considerável, nunca serão unidos novamente e restará apenas o vermes que deles se alimentarão. Os olhos que te perseguem serão afundados, virados, verão os destroços do que um dia fui, verão o que me tornarei. Olharei sempre pra dentro de mim e verterei as mesmas lágrimas de sangue já costumeiras. Não restará cabelo algum que tenha tocado. Arrancá-los-ei! Todos! Os ácidos que corroem o estômago terão passagem livre em breve e libertar-me-ei enfim. Liquefeita. Esfarelada. Outra. O monstro obscuro agora dá as caras. Fecharam as portas. As janelas. E qualquer passagem de luz. Não há mais luz. O monstro obscuro agora está às claras agora então. Sem mais conversas.

Fim do último ato!

rapidinhas

Letters are created to be written

Histories are created to be told

And what about us?

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Alfa ou infinito?

Depende da vontade, do vício

De qualidade, de início

Ser tal qual passagem ou rito.

 

 

 

Bedtime:

Time to wake up inside and mess everythin’!

dicotomia

medo de viver ou pavor da morte?

ímpar

Não poderia dizer como me sinto. Não consigo encontrar palavras que descrevam essas sensações. Sabe quando se quer dizer o quanto se ama uma pessoa e não consegue encontrar palavras que dêem conta? Estou assim, numa maneira inversa. Estou profundamente vazia, oca, pesada. Estou carregando comigo toneladas de tristezas. A solidão quase me impede de andar, fardo tão difícil de carregar. Emudeço. Não tem nada aqui dentro. É um sentimento inexplicável.

Morta. É assim que vivo. Um aglomerado de células que funcionam para nada. Minha alma me abandonou. É uma espécie de limbo. Não acho nada engraçado, sequer acho triste também. Sinto-me letárgica. Algo no mundo, avulso.

Não tenho afinidades de fato. Não ouço as mesmas coisas que ouvem da mesma maneira. É uma singularidade fatal. É como o sonho (premonitório) de criança que eu tinha repetidas vezes: eu ali, pequena e ao meu redor nada…quilômetros de nada, apenas o vazio externo e interno, a dor e a certeza de que não tinha ninguém.

Cresci assim. Talvez tenha me tornado um monstro. Ou um deus. Incrível como ao menos me parece que não preciso das pessoas, como elas costumam se precisar. Sinto pouca coisa. O vazio, é fato. Fora isso – a certeza de todo dia- não sei nem se sei sentir. A casca faz algumas coisas. Mecanicidades. Rir, agradecer, ler, olhar, caminhar, dirigir, abraçar, despir, sair, fingir… cadê o sentido de tudo isso? O que não é casca não entende todas essas convenções. Tem algumas preocupações decerto, mas não como eles.

Nunca soube o que quis, mas sempre soube que faltava. A falta sempre foi sentida. Dia após dia, por todos os segundos que se passaram a sempre enorme falta. A impressão de oco é cotidiana. E vejo os bonecos por aí. Sento-me com eles, converso com alguns, raros, estudo com eles. Alguns inclusive me dão raiva de tão nojentos que são.

Apesar disso, compreendo esse mundo. Não empaticamente. É a visão melhor que se tem quando se observa de fora. Percebo as séries de seres que foram feitas. Como cada um entra numa classificação e se comporta como ela. Assim como os animais, cada espécime tem suas atribuições e características, com os humanos não seria diferente. O todo classificatório para eles (porque não me incluo nisso) é falho. Há vários dentro dos homo sapiens, não precisa observar muito para perceber as diferenças e semelhanças entre eles. Agrupamentos com mais, outros com menos, mas sempre em séries. Não me enquadro nelas. Não quero isso. Às vezes talvez queira, ser uma ilha nem sempre é simples e fácil.

Penso que seria mais fácil desligar o cérebro e diluir-me em meio às massas. Fazer o que todos fazem, ir para onde todos vão, pensar (se é que pensam) como todos pensam. Mas vim com defeito de fábrica. Alguma peça faltou e faz falta. Sou o refugo. Indesejável, impensável, nula. Não me faço enxergável. Invisibilidade é uma arma, um abrigo. Se me vissem talvez ficassem chocados. Tanta humanidade. Tanta podridão… todas as coisas que não querem ver, que escondem, que viram a cara. (Dionísio!) Tanta igualdade nisso. Sou homem e nada do que é humano me é estranho.

Mas ninguém quer saber disso. As carapuças e máscaras estão sempre a sua frente impedindo que sintam de fato o que é a vida. Posso estar morta, não me eximo disso. Porém eles também não vivem. Ninguém sente o outro. Ninguém sente a si mesmo. As máscaras não deixam. Os corpos nunca se tocam. Os beijos estão sempre bloqueados pelos véus, que por vezes são bem densos e mais que véus, máscaras de ferro. Torpes. Movimentam-se como bactérias ao serem observadas em microscópio. Não são mais que isso. E não sabem disso. Ignorantes! Pensam ser Napoleão. Sempre. Querem ser semideuses. Os egos sobem, inflam, voam e perderam a noção da realidade há tempos. Barbies da barbárie que desejam ser eternas. E o são. A energia nunca se perde. Mas a individualidade sim. E é ela que não querem perder. Estão em nomes de rua e monumentos. Nos créditos. Nos livros e histórias. Nas memórias que se perdem. Não enxergam que somos apenas massa energética que se expressa de maneiras diferentes, assim como as estrelas, as pedras, as plantas, o que há de mais grotesco e de mais sublime.

Mas falo deles e era de mim que discorria. Não é perda de foco. No sistema, defino o que não sou para mostrar o que sou. E é isso. Uma enorme força. Aquelas dos terremotos e grandes catástrofes naturais. Sempre borbulhando, como na panela de pressão. Como num vulcão. Basicamente um vulcão. A parte visível que não causa dano algum. E a parte que está escondida e que pode vir à tona a qualquer momento é a que importa. Uma enorme força destruidora, arrasadora. Capaz de acabar com tudo. Sim, tudo. Gritos presos.

E o enorme desejo de gritar. De correr sem rumo, sumir, fugir sem destino. Atos que não levariam a nada. Então estou parada. Sou pedra. E sei que me vêem assim. Apesar disso, causo medo. Ao menos naqueles que tiveram a infelicidade de estar mais perto. É proposital. Tenham medo. Até eu mesma tenho medo. Não sei sinceramente do que seria capaz. Contenho sempre. O que faz com que a cada dia a bola de neve cresça. A força aumente. Isso pode ser um aviso. Para depois não dizerem que não avisei. Sou um fractal bastante pontiagudo. Um ouriço. Com pontas voltadas para fora e para dentro também. Espetando o nada. Doendo mesmo assim.

Já pensei em deixar de existir. Seria mais fácil para mim, mais fácil para todos. Mas aprendi a conviver com a falta. Levo tudo isso até ver onde vai dar. Sempre fui curiosa mesmo. E não faço ameaças. Não devo ser uma. Sou apenas algo. Algo talvez imprescindível para o equilíbrio de forças existentes. Sem nome, sem classificação, sem definição. Existo.
E não sei aonde tudo isso vai dar. Preocupo-me com isso. Faz parte da minha constituição obter sucesso no que faço. É inerente. E por isso tantas habilidades. A grandiosa força que existe, que é o nada, manifesta-se das mais variadas formas, dando-me a possibilidade de ser mil. Mas nada me basta. Sempre insatisfeita. Sempre querendo mais e mais. Essa fome que me persegue. Absorvo então como um buraco negro. É outra coisa que sou. Um buraco negro que traga o que circunda. Meus olhos mostram isso. Quando será que fiquei assim? Algo me diz que nasci assim. E ando errante desde então. Sem que nada possa me parar. Assim vagarei sozinha até o final dos tempos. Afastando-me deles. Somos pólos repelentes. Fico a margem. Ponho-os a margem. Observo cada passo. Evitando que aumentem o buraco. Que eu reaja. Manter-me-ei assim. Sempre assim. Sou ímpar.

Ali… está ali, tá vendo?
Ali?
É ali, olha!
Ali onde? O que?
Ele ali…
Ah.. ele…Ele? Como assim? Quem é ele?
Olha… ali…
Não to vendo …
Mas ele tá ali…
Eu não sei quem é ele, então não tenho como ver se está ali.
Não tem como não ver, ele tá ali.
Mas eu não vejo!
Olha naquela direção… bem ali…
Tô olhando e não vejo coisa alguma.
Se esforce… tô apontando até…
Estou me esforçando, mas não vejo…
Como não? Tá ali! Ele tá lá…
Não tem nada ali…
Tem!
Não tem…
Claro que tem, eu tô vendo cada detalhe… as cores, sua expressão, seu jeito, sua forma…
Detalhe? Não enxergo ninguém… nada, como haver ainda detalhe?
Ah, agora você viu!
Vi? Vi o que?
Você disse…
Eu disse? Disse que não vi nada.
Se você não viu nada, é porque viu alguma coisa…
Não, você não me entendeu… eu vi “nada”…
Então você o viu… É ele!!!
Ele quem?
O nada!

nihilities

“quando na paz, busco guerra, estando nela, busco a paz”

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